Quarta-feira, 27 de Fevereiro de 2013

C'era una volta il Italia (Era uma vez na Itália).

No rescaldo dos resultados das eleições italianas as bolsas afundaram, os mercados tremeram (sensíveis esses gajos), a burocracia europeia enviou recadinhos e os políticos do “arco do poder” de norte a sul, de este a oeste do continente desdobraram-se em declarações de preocupação pelo estado de saúde da democracia representativa-capital-parlamentarista. Enfim, se o “partido da ordem” não admite anormalidades – e a sociedade deve ser gerida como uma grande empresa privada, em que todas contradições devem ser recalcadas a bem da estabilidade do sistema/modo de produção e reprodução social capitalista –, admite de forma aberta ou velada que a política é polícia: manda quem pode, obedece quem deve. Eis o sentido de estado.

Em resposta a isso – e também à tibieza dos que empastelam alternativas que não vão além de uma austeridade de baixa intensidade, de soluços keynesianos, ou de um maior controlo estatal da gestão capitalista – a maioria dos cidadãos italianos votam, ou não votam de todo, com o intuito de fazer as urnas ir pelos ares. Evidentemente que isto é um gesto de pura negatividade e meridiana lucidez, o que é muito diferente de ser um gesto irracional ou irresponsável como querem fazer crer muitos analistas bem-intencionados, que vêem em cada esquina e em cada sobressalto o espectro do “populismo” e derivas totalitárias, que não sendo de subestimar, se deve lembrar que historicamente só se puderam substanciar fruto do pânico das elites, e com o seu apoio, e da diligência com que se reprimiram os movimentos e as organizações revolucionárias.

E porquê toda esta tremideira? Porque um comediante e um movimento inorgânico obtiveram uma votação significativa? Porque os candidatos oficiais ou oficiosos dos mercados foram varridos? Porque não se conseguiu uma maioria estável (de palhaços ou de ursos pouco importa) que garanta um ambiente adequado para os Negócios? Tudo isso com certeza, mas sobretudo a hipótese que a negação da situação se comece a transformar numa situação realmente perigosa para o capitalismo, isto é, que se instale uma instabilidade, uma crise positiva que crie, reorganize ou reconstrua formas de organização e relações sociais anticapitalistas que sucessivas derrotas foram destruindo ou marginalizando e que de resto, em Itália, têm uma história muito rica, ainda que muitas vezes trágica.

Parece fácil caricaturar a história política e social da Itália contemporânea – da Itália saída dos “anos de chumbo” –, ora como tragédia ora como farsa, mas essa simplificação encobre que essa tragicomédia, da qual estas ultimas eleições parecem ser apenas mais um episódio entre muitos, foi, e ainda é, o arranjo de poder e de regime que a aliança de todos os reaccionarismos - dos fascismos reciclados e puros da burguesia italiana à Igreja Católica, da Máfia aos serviços secretos nacionais e internacionais passando pela esquerda mais conservadora - operou durante esses “anos de chumbo”, em que as balas zumbiram e o terrorismo de estado instalou o terror para salvar o capitalismo.

E se em Itália todos os que estão, disputam ou querem destruir “o poder”, sabem do que a classe dirigente é capaz para o manter, também saberão que a herança do operaismo, da autonomia, das greves selvagens e das ocupações, dos índios metropolitanos e da Bologna insurrecta – enfim, daquele Maio de 68 que durou dez anos – tem partes muito suculentas.


   

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Terça-feira, 19 de Fevereiro de 2013

Troika Punks Fuck Off / Relvas has left the building

 Levando em conta que os membros do governo se armam em carapaus de corrida quando expostos à "GrândolaVila Morena", parece que o pessoal do ISCTE não precisou de cantigas para o ministro Miguel Relvas meter a viola no saco (e o rabo entre as pernas) e se raspar dali para fora.

Todavia não é caso para a malta desistir da salutar e ainda operativa máxima "a cantiga é uma arma", sendo talvez necessário alargar o repertório a temas mais cortantes (quer o objectivo seja só aparar a relva ou amputar parte [ou o todo] do governo).

Sugiro o clássico dos Dead Kennedys, "Nazi Punks Fuck Off", ligeiramente desviado para "Troika Punks Fuck Off": não só para o adaptar ao contexto, mas também para a malta não ser acusada de relativizar o nazismo encobrindo a careca dos verdadeiros neo-nazis que por aí andam (ou para cá caminham).

 

    

 

 

 


  

 

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Quarta-feira, 13 de Fevereiro de 2013

Let's twist again (like we did last [hot] summer)

Existe uma dimensão festiva e adolescente na gestão da corrente crise no capitalismo que é tão evidente que os comentadores e teóricos parecem não sentir necessidade de trabalhar sobre ela. À parte alguns sisudos e circunspectos, que volta e meia acusam o governo de ser um bando de gaiatos que andam a brincar com a vida das pessoas, o tom geral é de grande seriedade (a maior parte das vezes encenada ou simulada) na abordagem especializada aos assuntos económicos e financeiros, em si mesmos algo tão louco e alucinogénico que é difícil compreender como é que pessoas que parecem estar imersos neles não se escangalham a rir de cada vez que calha irem à televisão destilar sobre isso, dando largas à bebedeira. Mas existe mesmo uma festa em curso. Um verdadeiro arraial reaccionário, em que governo, ideólogos, capitalistas e representantes das instituições internacionais fazem o que (e como) lhes apetece, tendo o cuidado, como é evidente, de colocar uma máscara de inquietação quando falam em público: essa é a parte carnavalesca da pandega. Como é evidente, a festa destes gajos não tem graça nenhuma vista cá debaixo, não só porque se estão a divertir à nossa conta, mas também porque não sabem, nem podem, brincar sem nos foderem as vidas. Assim, a festa é uma cena exclusiva, macabra e lúgubre que - apesar da forma reiterada e vigorosa com que o pessoal diz “vão mas é brincar com o caralho!” - continua. Mas isto não tem que ser sempre assim. Quando invadirmos os salões de festas; quando organizarmos as nossas próprias festanças; quando nos começarmos a divertir à grande, as classes dominantes tremerão.
Quem dança por último dança mais fixe danças mais fixes.

 

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