Sexta-feira, 29 de Janeiro de 2010

Weitermachen!: @rte & Comunicação (ISBN 978-972-44-1424-9...9 789724 414249)

"A possibilidade de uma aliança entre "o povo" e a arte pressupõe que os homens e as mulheres administradas pelo capitalismo cosmopolita desaprendam a linguagem, os conceitos e as imagens desta administração, que experimentem a dimensão da mudança qualitativa,que reivindiquem a sua subjectividade, a sua interioridade."

Preço:

Este trecho da obra de Herbert Marcuse, A Dimensão Estética (1977) ilumina significativamente o repto que lançámos num post anterior. Isto não significa contudo que dentro destas setenta páginas do filósofo («marxista-heterodoxo») alemão -perdoem-nos o rotulismo -, pela qual pagamos 10€ numa loja do grupo FNAC, não existam afirmações e teses que a nossa realidade, subjectiva e interior, relutantemente não refute. Temos aliás a sensação de que dessa realidade, devidamente contextualizada, pouco restará de subjectivo e interior, transformando-se em algo terrivelmente objectivo e exterior. Nós, que não somos ainda «o povo», nem nada que se lhe pareça, podemos e queremos reivindicar a objectividade e exterioridade da nossa condição actual: condição de «artistas» aprisionados numa sociedade capitalista tardia: evidentemente tardia, porque a sua missão histórica está há muito terminada; faltando-lhe apenas ser exterminada.

- Já nada de novo tem para nos oferecer além da reprodução da morte em centenas, milhares, milhões de velharias.

Marcuse estava certo de que as obras de arte são irredutíveis ao espaço que ocupam nas relações produtivos e, nós próprios, também gostaríamos que assim fosse: que esse predicamento marcusiano, visivelmente alicerçado nas potencialidades revolucionárias das obras de arte, estivesse, sem mais, à disposição de todos os que se intitulam, hoje, de artistas (independentemente de isso ser ou não mais ou menos um atributo académico). Mas não basta constatar que se pode ser -ou querer sê-lo ou de como se pode sê-lo - «artista revolucionário», isto é, saber que existirão (algures) obras capazes de abalar os fundamentos da estética e da linguagem capitalistas - ou perguntar-se de que forma se pode fabricar material desse calibre. Material que constitui - diga-se de passagem, e com todas as distorções mercantis, certamente - boa parte do linguarejar repetitivo, delirante e dominante que abafa e assimila imediatamente tudo o que pise o solo sagrado das instituições burguesas. Isso agora, para lá do transtorno que causa, já não importa.

Visivelmente já ninguém pode ostentar ilusão alguma contra o poder de encaixe e absorção da máquina capitalista. Portanto a questão já não se coloca no campo do Como (pintar; escrever; falar; enfim: de como (des)comunicar. A questão só pode ser posta na discussão sobre a renúncia. - Se se quer jogar ou não; Se se quer jogar e segundo que regras.

O que Marcuse propunha já não serve - não sabemos se por a nossa cabeça ter crescido se por a carapuça ter encolhido. Poderá ter servido num momento determinado em que os escritores da burguesia puderam dinamitar a linguagem da sua classe sem precisarem de se afastar (sociologicamente) das origens; poderá ter servido também, um pouco mais tarde, quando uma pequena fracção radical da burguesia se colocou definitivamente ao lado da classe revolucionária. Assim escrevia André Breton in A Posição Política do Surrealismo (1935)

«Então o proletariado, de dia para dia mais ciente da necessidade histórica do seu triunfo final sobre a burguesia, chamava a si, à sua luta, um pequeno número de intelectuais, que o livre exercício da sua razão tornara suficientemente conscientes do devir humano para se declararem em ruptura total com a classe burguesa, da qual, na sua maioria, eram originários. Cabia a estes intelectuais ajudarem o proletariado, instruindo-o de um modo contínuo sobre o que tinha feito e sobre o que lhe restava fazer para atingir a sua libertação.»

- E agora? 

 

Agora talvez seja necessária uma renúncia sem precedentes, uma ruptura que reencontre do lado de fora da esfera mercantil - portanto do lado de fora da esfera para onde foram sugados os melhores espíritos e corpos da nossa geração que, nunca o esqueçamos, já não são em maioria originários da burguesia que gere a Vida como mercadoria, mas antes pelo contrário: a maioria está/estava do nosso lado e é por isso que a situação mereceria ser outra, infinitamente mais perigosa para o queixo do capitalismo que já sabemos não ser de vidro. Dizíamos portanto que já de fora de si mesma - até das margens mais alternativas - e de regresso a casa, isto é, ao deserto absoluto que nos espera para começar de novo, do zero, o rumo interrompido do deperecimento da arte e da sua concretização no seio da Vida Quotidiana; o que não passa  por uma pseudo-reconstrução da Internacional Situacionista, do Movimento Surrealista ou de outro avatar qualquer. É que os que armaram as (até agora) derradeiras armadilhas ao capitalismo e à burocracia - falamos dos «filósofos da rebelião» em geral e não apenas dos nossos antepassados («artísticos») - falavam ainda de dentro das possibilidades históricas do seu tempo, que Marcuse tão bem viu.

E nós, o que avistamos daqui? Quais são as possibilidades do nosso tempo?

Por enquanto ficamos por aqui, rasgando da Dimensão Estética a seguinte citação: «A autonomia da arte reflecte a ausência de liberdade dos indivíduos na sociedade sem liberdade. Se as pessoas fossem livres, então a arte seria a forma e a expressão da sua liberdade.»

- Onde paira, hoje -Artistas da nossa geração (se é que existem gerações...) - essa autonomia? Se já não paira, então é porque a arte perdeu até esse posto que Marcuse lhe havia assegurado, de coisa «absolutamente autónoma perante as relações sociais». E se isso lhe sucedeu então já não há mais vida, nem dignidade, lá dentro dessa autonomia com que a arte «protestava» e «transcendia» essas relações. 

- A autonomia morreu, viva a autonomia!

W E I T E R M A C H E N      

engatilhado por Semeador de Favas às 02:59
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