Quarta-feira, 6 de Janeiro de 2010

Dançando com o Zé Bigodes: ou de como aprender com os jovens a matar o pai.

Stalin par Pablo Picasso    Stalin par Art Terror Foundation

(1953)                      (2009)

 

Paira por aí na blogosfera há semanas, a pretexto disto e daquilo -ponha-se a par das minudências teóricas da delicatessen quem tiver apetite -, o fantasma do "pai dos povos". Que ora serve de arma de arremesso para atirar às trombas dos menos convencidos das virtualidades do comunismo-libertário, ora para os mais destemidos e desempoeirados esquerdistas darem rédea larga ao imáginário do movimento comunista do século XX. Não temos, para já, uma vírgula a acrescentar a essas boas polémicas, mas, como lhes achamos graça e as registamos, decidimos atirar para a frente esta revisitação do passado, saída das entranhas dos nossos pc´s tão naturalmente quanto fazer (ou apagar) em photoshop o bigode de Estaline; desenhando-lhe em seguida um bonito lábio superior com auxílio do sempre vanguardista paint. Este é de resto um desfecho lógico para uma intriga que se arrasta embrenhada na sua barba (por fazer) há cinquenta e sete anos - desde que o camarada Picasso enviou à redacção da revista Les Lettres Françaises o seu célebre retrato do defunto, fazendo escorrer rios de tinta pelas paredes de vidro da intelligentsia de esquerda que não estão, ainda hoje, totalmente secos.

Barbas e Tintas - que incluem uma auto-crítica de Louis Aragon e uma deliciosa retaliação de Pablo Picasso aos seus críticos - que os amadores dos sinuosos caminhos da Arte & Política Lda. podem ler aqui se vos apetecer.

Enfim, para nós - humildes dissidentes da seita de S.Lucas mas não muito, porque ainda não chegou o pós-revolucionário momento de ocuparmos o lugar que nos aguarda entre o povo (Sartre) - só nos resta retomar e concretizar o problema estético que o retrato de Picasso colocou na altura. Como representar um personagem histórico da dimensão de Estaline, sabendo de antemão não poder agradar as todas as tendências estilísticas, sensibilidades artísticas e gostos?

A Picasso, que tentou segundo parece criar uma homenagem honesta, acusaram de produzir uma afronta não-realista; de subverter a imagem que os povos tinham do "Patriarca do Socialismo" e de não fazer justiça à sua personalidade, enfim, de ter rabiscado um puto reguila com um bigode farfalhudo.

A nós, que estamos somente interessados em subverter, aprofundando Picasso, quer dizer, rapando o bigode ao miúdo e deixando-lhe o rosto macio e delicado como o de uma bela rapariga ou de um efebo, talvez nos acusem, depois de tresler o texto que guardamos para o fim deste post, de relativizar a presença do tenebroso Estaline na cabeça das crianças esquerdistas dos nossos dias...Bom, não se pode agradar a todos.

 

Não saíram daqui, todavia, sem antes escutarem uma estória que temos para vos oferecer em negrito. Nem pensem em fazer uma desfeita dessas ao vosso anfitrião.

 

Há cinco anos e alguns meses atrás -numa noite de Setembro na Quinta da Atalaia, Seixal, este companheiro que vos escreve teve uma epifania que consta desde então no seu manual-diário, pessoal e inleccionável, de ciência política. Ouçam, vou contar-vos uma estória levada do diabo.

Eu estava encostado ao balcão de um bar na cidade da juventude na festa do Avante!, bebendo uma cerveja gelada para lubrificar as lastimosas mucosas que acabara de adquirir numa monumental queima de derivados da cannabis sativa. Ao meu lado direito, distando cerca de seis metros, um grupo de seis rapazes e raparigas muito novos, empunhando cada qual uma grande folha de cartão com uma letra pintada - encenavam uma roda de pulos, danças, risotas e cantorias, digna de O jardim das delícias terrenas de Hieronymus Bosch.

Até aqui nada de extraordinário ou inédito; cenas absolutamente convencionais em qualquer um dos festivais de verão das operadoras móveis e marcas de cerveja. Mas eis que chegara a hora da revelação, que vos garanto não se ter tratado de qualquer experiência onírica, extra-sensorial, ou alucinação visual provocada por intoxicação de THC:   

Ora, como vos dizia, estava eu regando a garganta e assistindo aquele espectáculo hermético, quando os jovens se começam a alinhar desfazendo o círculo dançante para levantar, para quem quis ver, as placas que tinham nas mãos. Eis que a seguinte conjugação de letras se forma diante dos meus olhos: S-T-A-L-I-N.

 

Eu, que na altura era um anarquista empedernido e ortodoxo, posto perante tal exibição de bom humor e talento coreográfico espontãneo -que melhor qualifico de sessão de exorcismo- vos garanto ter-me tornado 40% marxista-leninista, rótulo que amiúde se confunde com o de estalinista para espetar na cabeça da esquerda m-l, não importando a idade do militante. Ora, quem faz propositamente esse papel de desmancha prazeres troca-tintas, não percebeu nada da sua própria adolescência e da influência das hormonas na formulação da inteligência política de cada indivíduo.

Poderão sempre obstar que aquele ritual a que eu assisti não foi um exorcismo, mas uma invocação pagã do grande demónio vermelho das décadas de 30-40, o que eu não poderei contestar completamente: tese que caíria redonda por terra se eu pudesse provar que aquilo foi de facto um ritual (de "acasalamento") orgíaco que, para todos os efeitos sobre a libido aquando da eventual concretização do acto, me serve perfeitamente de receita para caçar fantasmas. 

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