Terça-feira, 18 de Dezembro de 2012

Vamoláver sagente sentende

   Independentemente da análise estratégica e táctica que ocorra a cada um fazer acerca da atitude dos manifestantes [“pacíficos e não pacíficos”] que participaram na manife de dia 14 de Novembro em Lisboa (no dia da Greve Geral), importa desconstruir um certo discurso produzido em diversos textos publicados nas redes sociais por pessoas que foram vítimas da carga policial e das detenções arbitrárias que a sucederam. Um discurso que, alimentado pelo refluxo do pânico e da adrenalina que ainda percorrem o sistema dos que sofreram na pele, muitos pela primeira vez, a brutalidade policial, pode conduzir, se mal digerido ou oportunisticamente aproveitado, a um perigosíssimo crescimento de tendências para o auto-policiamento e auto-repressão do movimento de combate ao presente autoritarismo capitalista.

   Preocupa-me o seguinte: a facilidade com que muitas pessoas estão a aceitar ou a caucionar o discurso oficial, que visa como sempre dividir para reinar e reinar para manter a ordem, prestando-se a isolar – através da condenação abstracta da “violência” – os manifestantes mais aguerridos do corpo “pacífico” da manifestação, como se estes se tratassem não de companheiros com formas de luta (e de estar) diferentes das suas, mas como corpos estranhos (a meia-dúzia de “radicais”, “profissionais da desordem”, etc) que todos os movimentos sociais poderiam expelir do interior das suas acções e entregar de mão beijada às garras dos órgãos de repressão do estado.

   A irrepreensível lógica maniqueísta, ainda que bastante mais tímida entre “manifestantes anónimos” do que entre os figurões da esquerda institucional que têm muito a perder, que divide a malta em bons e maus manifestantes, assenta contudo em premissas completamente falsas. Desde logo porque tende a ver as “formas violentas” de protesto como uma especialização de determinados grupos mais marginais, isto é, como uma questão de estilo e de mau feitio prejudicial ao protesto, e não como expressões de revolta, mais espontâneas e caóticas ou mais organizadas, que se podem desenvolver a partir de todos os sectores da sociedade afectados pelo actual ciclo de proletarização e empobrecimento. Depois, porque parece dar a entender que apenas seria necessário controlar os mais combativos, impedindo-os de se expressar e existir, para esvaziar os ânimos dos mais exaltados – que são visivelmente cada vez mais – que já não conseguem ouvir apelos à calma e à ordem sem soltarem uma gargalhada de desprezo.  

Entendamo-nos quanto a este ponto. Tudo o que se conseguiria através de uma colaboração tácita com a bófia no que diz respeito à circunscrição do que se entender serem “agitadores violentos”, isto para além da óbvia equivalência a bufo e canalha, seria empurrar o pessoal que vai dando passos pequenos mas firmes da raiva pura para alguma coordenação com sectores politizados para uma posição de desespero e desprezo para com os movimentos sociais (atitude que seria, diga-se, totalmente justificada).

Sendo a síntese entre a raiva pura e a politização (substâncias que cada um doseia de acordo com as suas necessidades e/ou possibilidades) antídoto contra o tédio e contra as cristalizações ideológicas paralisantes, esta quebra de solidariedade entre manifestantes mais e menos pacíficos – quebra que sempre e em qualquer parte é a morte de ambos os artistas – teria ainda como consequência um extremar de posições que levaria a um regresso ao sectarismo identitário que apesar de tudo se tem conseguido diluir nos últimos tempos num caudal de protestos bastante heterogéneo: heterogeneidade que se deve também em boa parte a ter sido abandonada aquela cena um bocado ridícula das manifestações parecerem cortejos fúnebres em que ninguém podia mijar fora do penico sem levar nas orelhas, ou aquela outra não menos patética dos “ultra-revolucionários” não lá porem os pés por tudo aquilo tresandar a folclore de neo-hippies requentados.  

A violência será sempre um tema fracturante, mas ou se discute sem preconceitos e dogmas, ou se continua a iludir entre outros o seguinte facto. A polícia não carrega ou deixa de carregar sobre manifestantes em face do seu comportamento ser mais ou menos combativo, mas sempre que as condições no terreno são favoráveis ao sucesso de uma carga. Por tudo isto, discutir se uma carga policial é culpa destes ou daqueles manifestantes, se não é uma pura perda de tempo, é pelo menos um convite à desunião. Não uma desunião qualquer, mas uma desunião que não é fruto da crítica mas do medo induzido pela estratégia que as autoridades delinearam tanto de um ponto de vista operacional quanto comunicacional, isto é, no que diz respeito à informação e contra-informação debitada nos média pelos ideólogos do costume. 

Finalmente, a inoperatividade total da lógica da batata. A policia usa (usou sempre que lhe mandaram) agentes infiltrados (e quando calha provocadores), vai daí os lógicos indignados exercem a sua arte: se os provocadores violentos são polícias infiltrados, então todos os manifestantes violentos são polícias. E se não são polícias fazem o trabalho sujo da polícia.

Se é para irmos por este caminho então eu socorro-me de uma deliciosa bujarda que a boa e velha communarde, Louise Michel, um dia largou: “nós adoramos ter agentes provocadores no partido, porque eles propõem sempre as moções mais revolucionárias.”  

Graçolas à parte. Quando a conversa chega a este ponto então a táctica do medo atingiu plenamente o seu objectivo, que é o de desestabilizar emocionalmente, desorientar e virar os manifestantes uns contra os outros. Dito de outra maneira, quando a paranóia se instala está o caldo entornado. A partir desse ponto já não é possível coordenar nada, a solidariedade cessa, o protesto vivo e verdadeiro (qualquer que seja a sua forma) estiola e morre, e no seu lugar fica uma carcaça que pode ser manipulada a bel-prazer dos porta-vozes da polícia e a quem aproveita a ideologia dos “brandos costumes”:

a Nós não.  

 

 

 

engatilhado por Semeador de Favas às 02:07
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