Sábado, 15 de Janeiro de 2011

Notas p`ra Rodapé: gato (negro) escondido com bigode (de Walter Benjamin) de fora.

 

«Na Terra fomos esperados. A nós, como a cada geração precedente, foi concedida uma frágil força messiânica sobre a qual o passado exerce uma pretensão. Não é justo negligenciar uma tal pretensão.»

Walter Benjamin

 

 

 

O tempo capitalista, isto é, o tempo não vivido, o tempo dividido para melhor ser explorado em prol do lucro é tempo de vida perdida: aceitamo-lo porque o trocamos por dinheiro (capital do qual directa ou indirectamente, contínua ou intermitentemente, de um modo ou de outro, todos precisamos para sobreviver na/à civilização capitalista global). Mas, este modelo de sobrevivência, está de tal maneira enraizado no corpo e no espírito dos que têm para trocar apenas a sua força de trabalho - seja qual for o grau de especialização que a cobre - que se algum grupo de trabalhadores exige através da paralisação de um determinado canal de mercadorias que o desmembramento da sua vida não seja aprofundado, prejudicando pontualmente com esse acto não apenas a economia mas, inevitavelmente, também um conjunto de utentes do seu sector de actividade - para que a sua estratégia de luta seja criminalizada e desqualificada pelas massas compactas e amorfas; que são manipuladas pelo cinismo dos governos e pela hipocrisia dos sindicatos legalistas.

 

O governo do reino de Espanha reagiu à «greve selvagem» dos controladores aéreos do modo mais demagógico possível, sacando dos argumentos mais previsíveis que os Estados ditos democráticos herdaram dos seus antecessores fascistas. Não é espantoso que contra a greve se apele aos sentimentos mais mesquinhos e egoístas que os seres humanos podem conter em si. Acusar os grevistas de chantagem, ou de manterem os cidadãos reféns nos aeroportos, é um método simples e barato para - antes de usar o punho de ferro do exército - agitar a «opinião pública» e direccioná-la contra os trabalhadores em greve. A partir daqui, os dados estão lançados para que se recorra à força, e à militarização dos sectores que forem considerados indispensáveis para o normal funcionamento da economia.

 

 

 

(...) O fascismo vê a sua salvação no facto de permitir às massas que se exprimam mas, de modo nenhum, que exerçam os seus direitos. As massas têm o direito a exigir uma alteração das relações de propriedade; o fascismo pretende dar-lhes expressão, conservando essas relações.(...) Walter Benjamin

 

 

 

Torna-se cada vez mais evidente que o funcionamento da economia capitalista está acima de qualquer direito, e que o exercício dos direitos (ou a luta por eles), só é admissível enquanto não for prejudicial para a economia. A cidadania, que a classe dominante e os seus representantes não se cansam de pintar como um delicado dispositivo em que direitos e deveres se contrabalançam, desmorona a cada tentativa radical de aplicar os princípios éticos que a fundam. Ora, para que servirá o «direito à greve», se este não se puder expressar fora de um conjunto de directivas que desarmam qualquer hipótese de uma Greve se tornar transformadora, atingindo as  suas causas e os seus causadores?

 

Quando o «Estado de Direito Democrático» define deste modo os limites da participação cívica nos destinos da urbe, não faz mais do que revelar a verdadeira natureza (repressiva, centralizadora e autoritária) do Poder Estatal. Na verdade, no que diz respeito à aplicação concreta dessa natureza, não difere, se não em quantidade, do modo fascista de exercício do poder através da arregimentação das massas. Estas podem expressar-se, desde que com isso não alterem o seu destino, isto é, desde que não se constituam em classe, quer dizer, que não deixem de ser massa.

 

 

 

(Walter Benjamin) alertava-nos para o facto da história dos oprimidos nos indicar que o estado de excepção em que vivemos ser a regra. Falava aos que tinham como missão derrotar o fascismo que dominava a Europa do seu tempo. Os actuais Estados europeus não brotaram espontaneamente do solo sagrado dos seus mitos, nem dos propalados valores e virtudes culturais e políticas (herdadas das civilizações ocidentais clássicas e do cristianismo); saíram das entranhas de ditaduras brutais e de guerras inacreditavelmente devastadoras (que nunca deixaram de se apoiar  e justificar na defesa do mesmo substrato cultural das recentes democracias ocidentais).

 

Os recentes acontecimentos na Europa, ocorridos precisamente nos países que continuam a reivindicar-se os mais livres e democráticos do mundo, lembram-nos daquilo que nunca nos devíamos ter esquecido, isto independentemente das reformas democráticas que séculos de lutas sociais conseguiram impor nos Estados modernos. É que das Monarquias Liberais e Constitucionais às Democracias Parlamentares, passando pelas Repúblicas jacobinas e pelos Estados totalitários, isto é, independentemente dos regimes de gestão e controlo da sociedade, todos eles  tiveram (e têm) como finalidade última apresentar e defender o modelo definitivo (ou mais eficaz) de manutenção da ordem capitalista e, com ele, as ferramentas repressivas ou dissuasoras para todos os que se erguerem contra a ordem vigente.

 

 

 

Quem está à espera de avião nos aeroportos tem que compreender que a facilidade com que hoje se apanha um avião e se viaja de A a B, não é uma dádiva divina nem um fruto natural do progresso; depende de uma máquina muito bem afinada - todavia frágil -  que depende (ainda) de mulheres e homens de carne e osso dos quais a máquina se alimenta. Estes homens e estas mulheres têm aspirações e angústias que não podem ser silenciadas lembrando-lhes simplesmente que são, entre os oprimidos, uma fracção «privilegiada» de oprimidos.

 

O que os media corporativos não podem perguntar aos clientes nos aeroportos - sob pena de inadvertidamente fazerem despertar alguém do transe do conformismo - ou de se depararem com alguém já desperto que lhes respondesse de modo imprevisto -  é se não concordam que o seu  (direito ao) conforto é alavancado pelo esforço de terceiros, para o qual não contribuem de outro modo que não pelo simples pagamento de um determinado conjunto de serviços ao patrão dos servidores.

 

Seja qual for a razão pela qual alguém possa pensar que pode obrigar outro alguém a trabalhar - por muito bem que esteja disposto a pagar  - essa pessoa estará mais tarde ou mais cedo pronta também para aceitar a escravatura pura e dura. Quem usa como argumento contra a greve que ela é um incómodo para os cidadãos, não hesitaria (se o que resta da sua consciência assim o permitisse) dizer que a abolição progressiva da escravatura foi/é um incómodo para os senhores de escravos.

 

 

 

Nos momentos em que o ciclo de morte da mercadoria nos divide em castas de serventes e servidos, isto é, quando nos coloca na pele de consumidores; quando os cidadãos se transfiguram em clientes, o conceito moderno de cidadania, e a sua falsa consciência, degenera num derivado mercantil que é a sua verdadeira face: em que ser um cidadão-consumidor é sinónimo de superioridade, um estatuto que confere ao seu portador o poder de tratar de cima para baixo os que circunstancialmente se encontram no outro extremo do circuito, o de cidadãos-produtores. É nos nossos momentos de consumo, e não dos de produção, que nos tornamos verdadeiramente escravos dos nossos miseráveis salários. Porque é precisamente nesses momentos que cessamos de ser solidários e nos tornamos odiosos reprodutores da lógica dos que lucram com a miséria; dos que desde cima nos comprimem, dia-a-dia, para nos manterem uma viscosa pasta de moluscos humanos: aquilo a que pomposamente nos habituaram a designar de sociedade.

 

 

 

Tão maus como estes, ou piores ainda, são os que pretensamente vindos de baixo - e empurrando desde a esquerda - não fazem outra coisa que não seja facilitar a tarefa da trituradora que labora lá em cima, fornecendo-lhe um recipiente estanque à maneira. O desespero estampado nos rostos humanos dos controladores aéreos não é outro que não aquele que sentiria qualquer vertebrado obrigado a viver por algumas horas numa fenda onde apenas se sentem seguras e confortáveis criaturas às quais uma intervenção/mutilação cirúrgica de larga escala - ou uma terrível mutação - arrancou o esqueleto.

 

 

 

Nenhuma proposta verdadeiramente radical pode começar o seu caminho que não seja com um forte e solidário «que se foda a sociedade!».  

 

  

 

 

engatilhado por Semeador de Favas às 22:25
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