Terça-feira, 19 de Outubro de 2010

Vidaódromo

Nativo da tranquila e pacata planície alentejana —medida da preguiça que ergue em rebeldia a minha força de trabalho, normalmente pouca e condicionalmente com mais ou menos vontade— extraditado para a Grande Metrópole langueana, onde uma orquestra passa despercebida (agravando a concepção da "metrópolis" Langueana cuja cacofonia urbana não era mais que uma imponente orquestra pós-romantica) e uma estátua nem uma reles rotunda tem de poleiro.

A urbe ausente de pousio.

A terra de asfalto que a cada dia muda de rosto, impedindo o afecto ao que é morto, ao passeio, à paragem de autocarro... Ou ao que é vivo, que passa, zumbe, zumba e desaparece num ápice ao morrer, sem que deixe de ser reposto por outro passageiro zumbido zumbador... Ou cem. Compõem uma vivaz sinfonia macabra. O caminho de todos os dias, é todos os dias diferente, mas imutável é o enfado que lhe oferece moldura.

O formigueiro é insuportável quando é humano. A fadiga da tentativa da observação duma paisagem que não nos permite sequer um relance olhar fugaz sobre um fotograma de retina. Instabilidade. O ataque é constante. A manada não pára. Dizem que um homem não é uma ilha... Se não a for, então está perdido como a maré que atravessa. É possível ser uma ilha. É válido ser uma ilha. É necessário ser uma ilha. De outro modo é-se peixe num cardume pesca-nova. Empacotado, sem espinhas e ultra-congelado.

É impressionante e interessante ao mesmo tempo observar (quanto mais em condições como estas—avanço tecnológico e o caralho que o foda, o Deus-Artifício humano e a massificação entendida como "exaltação da vida"...) que tão mais nos assemelhamos a outros animais... enclausurados. Torna-se uma Bela lufada de natureza—plastificada—a percepção da transformação do ser humano no animal que por ele próprio é reprimido do seu habitat natural.

Passemos pelos jardins de soho square, cavendish square, hanover square durante a tarde, e veremos que a relva verde se converte em pasto, a cerca art nouveau em jaula. Estamos assim perante autênticas jaulas, para as quais o animal em causa deliberadamente se desloca para ruminar em manada a sua ração bem racionada para todos.

O dr. humano tornou-se cativo do seu próprio artifício, que ganhou anima própria e independente. O humano é prisioneiro da sua realidade criada, não que as vigas e as grades sejam irrompíveis, mas que esse aço, tal e qual o osso craniano, é já parte da mioleira—em forma de mutação bem sucedida.

Assiste-se à conquista da carne viva pela máquina, qual Cronenberg.

 

De que consiste, o que compõe a metrópole para além dessa lama morta-viva confinada à pressão, esguichando pelas fendas do betão armado? Onde há vida humana que não uma emulação de costumes socio-culturais já obsoletos reprimida pelo frio das grades da jaula?

Torna-se pretensioso sermos humanos quando a nossa vida na metrópole não passa de uma representação discreta e encoberta de um qualquer teatro, um teatro autista.

Urge despertar desta dormência, deste entorpecimento decompositivo provocado pelo bombardeamento massivo e maciço da nossa própria massa!

«O atraso na passagem da decomposição às novas construções decorre do atraso que se verifica na liquidação revolucionária do capitalismo.» (1958, I.S.)

 



mais está para vir...

directamente da grande metrópole londrina,

Junco (RIⒶT)

um abraço!

engatilhado por Junco Julieta Túbaro de Guindaste às 17:39
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esmolas:
De Semeador de Favas a 19 de Outubro de 2010 às 20:58
Bonito e certeiro tiro, este teu postextopoemavideo. Recarrega e dispara novamente!
Um grande abraço para ti, Junco!
De m a 21 de Outubro de 2010 às 13:40
Muito bom.
De Semeador de Favas a 21 de Outubro de 2010 às 15:08
Junco, esqueci-me de dizer uma coisa que os teus vídeos demonstram cabalmente, se para tal necessitássemos de mais provas: os pombos urbanos -ou ratazanas aladas ;)- têm uma capacidade respigadora digna de homenagem.
Um abraço catapultado, de L(isboa) a L(ondres).
De Inconstância Variações a 25 de Outubro de 2010 às 21:32
Aguardo inquenta e impaciente o próximo post.

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