Sábado, 16 de Outubro de 2010

Se não posso sonhar, não é a minha insurreição.

Entre várias conversas que tenho mantido com companheiros e amigos (reais e imaginários) - entre os quais se contam indescritíveis seres que habitam as cavernas profundas e carnívoras dos meus sonhos - vem sempre à superfície, enquanto falamos sobre a Vida; o emprego; o desemprego; o emprego de merda; a arte; a arte de viver; a merda da arte; a arte de sobreviver nesta merda de ordem económica e social, a angustia da pergunta pelas reais probabilidades de, leia-se dentro do nosso tempo de vida, podermos Transformar a Vida. Quantas gerações de mulheres e de homens que transportaram a tocha da revolta e um mundo novo nos corações, se viram derrotadas nas diversas batalhas em que participaram ou, quando vitoriosos, arrastadas mais à frente para longe desse mundo, surpreendidas desarmadas pelo refluxo das ondas revolucionárias que de tempos a tempos abalam os alicerces do mundo velho?

Da minha parte, é com bom humor que encaro as diminutas possibilidades da ocorrência de uma insurreição geral da qual venha a sair uma transformação radical das actuais circunstâncias. Na Europa, mesmo onde o movimento de contestação às medidas de gestão da actual crise orgânica do capitalismo se mostra mais vigoroso (Grécia e França), os impasses, as contradições e as incertezas próprias de quem tem para criar, a cada avanço e cada recuo, novas estratégias de combate a um modelo civilizacional dirigido por governantes que elevam a parada a cada lance tendo fixado, para já, a sua defesa na exclamação «nem mais um passo atrás!», começou a causar baixas na vontade humana de o abater.
Os revolucionários profissionais, atados de pés e mãos às condições objectivas e subjectivas tanto quanto ao dogmatismo das suas estratégias (trotskistas, leninistas, estalinistas ou outras quaisquer) parecem ter esquecido os ensinamentos dos seus mestres e com essa estranha amnésia a táctica e a técnica do Golpe de Estado; porque crêem que os meios tecnológicos à disposição das forças da ordem tornaram irrealista qualquer possibilidade (não suicidária) de tomar (e manter) o Poder do Estado nas suas mãos; ou porque se resignaram à conquista pontual e reformista desta ou daquela côdea ou migalha que caia das mãos dos actuais detentores do poder.
Como é evidente, a perspectiva da simples mudança de senhorio não se encontra na minha agenda e não me agrada - porque de modo algum pode resolver todos os problemas que a superação do capitalismo coloca e persegue -, e se tal me ocorre é apenas enquanto preocupação sobre o impasse que gera a indecisão de quem disputa a cadeira do poder: não queremos outros donos mas deixar de ter donos; nem esperamos que a liberdade nos seja entregue de (segunda) mão beijada.

Mas, se é é é com o Humor que vou construindo - com os parcos meios de que disponho - a minha narrativa insurreccional, é porque ainda concebo a vida quotidiana (e as suas possibilidades que são uma lufada de ar fresco) como a janela de onde sairão todas as revoluções do futuro, por mais cerradas que se encontrem as portas para a Liberdade Toda: que para efeitos práticos é toda a liberdade que importa; e porque o Humor é a arma mais eficaz que o Homem inventou para comunicar com os seus semelhantes - e também a mais contagiante - e, portanto, a ferramenta mais afiada que tenho - consciente que estou das minhas limitações -  para me ligar aos que como eu, ou próximos de mim - pretendem possuir uma Alma Viva para desafiar o Presente Desértico que alastra.

 

Agora, se por acaso irromper por aqui alguma Alma Morta instigando-me a largar a droga previno-a com a seguinte advertência: «Nem penses, pois é das poucas coisas - depois do Amor e da Amizade - a que vale a pena agarrar-me de momento»:

 

O scanner está aquecendo...

Não abra a tampa de documentos

 

engatilhado por Semeador de Favas às 00:00
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esmolas:
De Junco Julieta Túbaro de Guindaste a 17 de Outubro de 2010 às 21:54
e sorridentes e bem humorados amparemos o que lá vem e cavemos o nosso cultivo (ainda que num curto cantinho), sendo estas as nossas defesas tal como as nossas ferramentas de trabalho! um viva a ti, a este belo texto e à força insurreccional na vida de nós os rebeldes e drogados, marginais, foras da lei, vandalos, feios, porcos, sujos e maus!
abraço!
De Inconstância Variações a 17 de Outubro de 2010 às 23:46
É exactamente de mais "rebeldes e drogados, marginais, foras da lei, vandalos , feios, porcos, sujos e maus!" bem humorados que este país e mundo precisam!
De m a 18 de Outubro de 2010 às 16:18
Dá calafrios só de pensar nessas almas mortas. Sabes onde há muitas? Nos comentários dos jornais corporativos. Sempre que cometo a imprudência de passar por lá fico com o dia estragado.

Insurreição combina com humor.
Abçs
De Semeador de Favas a 18 de Outubro de 2010 às 16:49
Do que me foste lembrar, Mescalero!
Há já algum tempo que fujo que nem o diabo da cruz das caixas de comentários dos jornais. E nem sequer é por «higiene mental» - penso que a minha mente está suficientemente protegida contra o que por lá se lê - ou por medo na «vox pop», como o Pacheco Pereira (lol), mas porque a destilação de ódio e a reprodução do discurso e da ideologia dominante é de tal ordem que temo pela saúde do meu estômago.
Sou fraco de estômago.
Um abç.
De Inconstância Variações a 19 de Outubro de 2010 às 01:01
De facto sofri do mesmo mal, da última vez que fui obrigada "a levar" com esses comentários. E o meu estômago não é tão fraco assim.
De Inconstância Variações a 19 de Outubro de 2010 às 01:03
Já agora, boa remodelação. :)

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