Quarta-feira, 29 de Setembro de 2010

(Res)caldo-verde da visita papal.

uem não se deixou espantar com a escala da campanha securitária montada em nome da saúde do octogenário alemão, Joseph Ratzinger, que solte o primeiro «dahhhhh», porque eu fiquei com um estupor tal que demorei seis meses a remoer o que de facto terá passado pela cabeça dos organizadores do espectáculo e a decidir-me a publicar alguns parágrafos sobre o assunto; deixando, claro, as indigestas questões religiosas para os teólogos, para os fãs do papa e para os ateus militantes.

 

Parece-me evidente que o esquema de segurança montado para defender o Chefe de Estado do Vaticano durante a sua visita, visou a prevenção de incidentes totalmente distintos dos que uma operação desta natureza preveria: não nos esqueçamos que um atentado à vida do papa, ou uma simples tentativa de lhe ir ao vulto, seria logicamente levada a cabo seguindo o método clássico do regicídio: um indivíduo (dois ou três no máximo) rompe o cordão de segurança e faz o que tem a fazer, se o deixarem fazer. A própria tradição dos atentados papicídas, de J.P II, baleado em 1981, à tentativa da judoca que quis derrotar Bento XVI por ippon no Natal de 2009, confirma que o plano das forças de segurança portuguesas tinha intenções veladas: pôr no terreno uma típica operação «anti-terrorista» de larga escala, que a situação - mesmo tendo em conta a possibilidade de um atirador furtivo alvejando o papa a partir de um prédio em qualquer ponto do desfile até à Praça do Comércio - não justificaria; até porque o vidro (à prova de bala) do papamobile tornou obsoleta a intervenção providencial da Nossa Senhora de Fátima.

Assim sendo, tudo parece concorrer para que a visita do papa tenha sido instrumental; um pretexto para demonstrar (e experimentar) a força táctica e estratégica dos meios materiais e humanos para evitar chatices à disposição do Estado Português. Quem reina, e quem governa quem reina, não dorme em serviço, nem olha a meios para deixar cama feita quando se trata se ir deitar com o trabalho de casa feito e a lição estudada.

 

No horizonte dos estrategas da «operação papa» de Maio, esteve sempre presente a mobilização social anti-militarista/capitalista que a Cimeira da Nato desencadeará em Novembro: quando as ruas de Lisboa se encherão de manifestantes e desordeiros; caso o perímetro de segurança da Cimeira não seja alargado até à fronteira da República Portuguesa com o Reino de Espanha... 

Que problemas de ordem prática colocam - do ponto de vista dos movimentos sociais e das suas estratégias de acção - a operação que foi erguida (quando a tourneé europeia de Bento XVI passou por Portugal) e as hipotéticas conclusões dos responsáveis por ela; e o que podemos extrair daí?

As recentes declarações do  presidente da Associação Sindical dos Profissionais da Polícia (ASPP) - que admitiu ter a PSP reclamado mais meios logo aquando da visita papal -, vertidas a propósito da polémica com a Associação dos Profissionais da Guarda e em defesa  da compra dos veículos blindados anti-motim para reforçar a operação de segurança da Cimeira, parecem comprovar a tese de que a «operação papa» se tratou de um ensaio geral, através do qual foram detectadas as lacunas de equipamento que vêm agora com escândalo, mas não surpreendentemente, ser colmatadas.

 

Na sua desadequação metodológica premeditada, os arquitectos do plano deixam transparecer vários dados relevantes: 1º Que o Estado Português parece ter muito que provar aos seus aliados no que diz respeito à sua capacidade para engendrar e aplicar um plano de segurança de larga escala, principalmente se o plano requisitar a articulação de diversas forças policiais e militares, e que os responsáveis estão totalmente disponíveis para gastar à tripa-forra para demonstrar os seus talentos repressivos. 2º Que as forças policiais não se sentem confiantes nem seguras quanto aos meios que têm para desempenhar a sua missão de «manutenção da ordem pública»: curioso eufemismo para guarda de falcão de guerra. 3º Que a paranóia securitária tem  limites cada vez menos definíveis e que começa a ser difícil encontrar adjectivos para descrevê-la com acuidade.

 

O dirigente da ASPP radicaliza: "Todo o equipamento de manutensão de ordem pública e pessoal é bem vindo, porque a PSP necessita estar sempre actualizada e de transmitir à população uma mensagem de capacidade e profissionalismo".

Ao que parece, um arsenal que por absurdo transformasse a PSP na força policial mais e melhor equipada da Europa - isto independentemente da escala do país e dos seus níveis e tipo de criminalidade - não seria suficiente para descansar o espírito dos homens e mulheres que têm «de transmitir à população bláblábláblá»: tudo isto para que Portugal se torne um sítio seguro para as passeatas dos papas e acolhedor para as tertúlias das altas figuras da Ordem global...

 

O Capitalismo sente-se acossado pela crise que tem para gerir e o seus braços estatais e militares estão a ficar nervosos com a dimensão da tarefa que têm em mãos: estes são os momentos mais perigosos para quem luta contra eles, mas não menos perigosos para o Capitalismo, ao qual neste momento caem irremediavelmente todas as máscaras. 

Pelas notícias que nos chegam hoje de toda a Europa, as portas de entrada das prisões parecem estar escancaradas para todos os manifestantes mais afoitos; e o bastão autoritário está em riste (mesmo no caso das manifestações mais folclóricas e institucionalizadas).

 

Quanto aos confrontos que inevitavelmente ocorrerão em Novembro, só nos resta esperar que as deficiências das forças da ordem portuguesas e a sua visível desorientação sejam força para o movimento anti-militarista que se propõe  transformar a Cimeira da Nato num campo de combate social. A Cimeira dos Falcões vencerá provavelmente pela desproporção e despropósito dos meios utilizados, mas não ganhará todas as batalhas: além de que o que realmente importa é/são a(s) guerra(s), isto é, acabar com elas.

 

Endureçam os vossos corpos e amoleçam os vossos corações: ponham-se em forma para Novembro. 

 

 Sim,  para o !

engatilhado por Semeador de Favas às 23:34
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