Quarta-feira, 7 de Julho de 2010

Sai um pires de sociólogos para a mesa do fundo!!!

No fim do dia, apenas se salva o belo rosto da Scarlett Johansson.

 

Encontrei por acaso, amarrotada no banco do metro, esta cópia do jornal de distribuição gratuita METRO. Impressa estava, nas parangonas da primeira página, a sensacional e seguinte brutidade: «Copiar Faz escola em Portugal». E o respectivo subtítulo: «Entre os alunos portugueses 60% assumem publicamente que copiam nos testes. Eles mais do que elas e os alentejanos acima da média nacional."Treino começa logo na Primária.»

Até aqui julgava eu estar perante uma vulgar estrumeira estatística, daquelas que dão bom composto para adubar a camarilha da opinião e do comentário nos estúdios e nas redacções: mas não. Trata-se de um estudo académico sério, realizado portanto (perdoem-me a eventual ingenuidade) segundo rigorosos padrões de cientificidade, por especialistas da área da sociologia.

Segundo o artigo, o professor da Universidade do Minho responsável pelo projecto, avançou «para perceber a verdadeira dimensão do "copianço" nas escolas portuguesas e deparou-se [Valha-nos Deus nosso Senhor Jesus Cristo!] com uma realidade assustadora:"No ensino superior a predisposição para copiar é quase universal".»

Pergunto-me qual o interesse em saber a «verdadeira dimensão» do copianço?

Provar que os jovens portugueses são cábulas?

Não tenhamos quaisquer dúvidas: este artigo foi despejado em plena época de e(n)xames para dar respaldo científico às medidas ultra-securitárias a que, durante estes dias, o Ministério da Educação obriga toda a comunidade escolar: professores; auxiliares educativos e estudantes. Esta transformação sazonal de pessoas socialmente encarregues da missão de educar em polícias; e de crianças e jovens exercendo o seu direito a aprender em potenciais criminosos, devia originar uma sublevação no espírito dos sociólogos. Mas parece que o problema é haver quem copie numa coisa que não tinha que existir. E não devia existir não porque a avaliação, ou qualquer instrumento que sirva para o aluno  medir aquilo que aprendeu ou não aprendeu, seja algo demoníaco, mas porque o exame, tal qual está instituído, é um espécie de imposto - ou na pior das hipóteses um tribunal -, a que o estudante se deve submeter a fim de justificar, perante um corpo de fiscais e juízes, se valeu a pena o dinheiro investido pela família expandida (Estado) -e pelo Estado atrofiado (família) -  na sua formação.

Por outro lado, existe a «ideologia do mérito»: um lobby que afirma a necessidade de suspender à frente do nariz do estudante uma cenoura chamada nota - mais tarde (na sua «vida profissional») substituída pelo dinheiro vivo - para fazê-lo marrar mais que o vizinho. A ideologia do mérito serve ainda para o Estado racionar o número de estudantes que entram no ensino superior, onde «a predisposição para copiar é quase universal». O raciocínio oficial é o seguinte: a educação é um direito mas não exageremos. Acontece também que esta ideologia é cozinhada através de uma mistura explosiva de facilitismo e mérito. «O exame é indispensável», afirmam todos os meritólogos; «desde que seja fácil», promovem os facilitistas. Ambos, irmanados nesta salada de Verão, mantêm o absurdo dos exames intocável: os meritocratas não conseguem acabar com os exames fáceis, e os facilitólogos não conseguem acabar com os meritocratas. Quem se fode e fica fodido é o mexilhão, os alunos e os professores, quer dizer, os professores e os alunos que ainda não tenham sido contaminados pelo vírus do conformismo; para os restantes «é a vida».

Ora seria importante contextualizar a questão do «copianço» na ignomínia destes exames faz de conta: façam de conta que aprenderam, façam de conta que estudaram, mas façam conta com o exame. Mas que misterioso suplemento de alma poderá ser servido aos jovens, a fim de os fazer estudar e crer naquilo que estudam, se, logo à cabeça, os querem convencer que os exames são fáceis e que as matérias que os querem fazer estudar foram preparadas em regime de readers digest para embotados?

O copianço, nascido sob estas circunstâncias, só pode espantar quem julgue que a vontade de aprender se possa mobilizar à porrada; ou através de advertências como «estuda filho, e não copies que é feio.» Mas, o pior de tudo, é a lata do sociólogo responsável por essa pérola da academia invocada pelo Metro. Procurei ler mais alguma coisa sobre a sua obra - o «romance» apocalíptico "O copianço na universidade: o grau zero na qualidade" e descobri tiradas realmente esclarecedoras como: «tendencialmente os alunos que querem copiar são os primeiros a chegar à sala de aula, para escolher os lugares que os colocam mais na zona de sombra do olhar e da atenção do professor»;  «As cábulas podem ser colocadas em canetas, bolsos, nas próprias provas do exame, nos tampos das mesas, até aos métodos mais sofisticados como máquinas de calcular ou telemóveis»; «ligações telefónicas do interior da sala para o exterior».

Esta exposição detalhada da técnica do cabulanço roça, digo eu, perigosamente a delação e não acrescenta uma linha aos manuais de bem cabular que podemos encontrar em forma de vídeo ou de texto na web. Portanto, não só é delatório como inútil ,visto que não ensina nada de novo a quem quiser usar cábulas.

E, isto, leva-nos a pensar sobre uma questão (mais geral mas) que tem a sua pertinência. Quando os sociólogos (e poderíamos falar de qualquer outro especialista) se põem a trabalhar à peça - e perdem a perspectiva da totalidade - só podem reproduzir banalidades soporíferas. E contra isso, de nada lhes valem as extrapolações que consigam fazer do seu estudo separado, para outra dimensão qualquer da vida; ou as pontas espigadas que tentem puxar da realidade social para dentro dos seus bacamartes de 450 páginas. É que mesmo que o motif desse estudo seja identificar um nexo entre a prática da cábula e do copianço e a cultura da corrupção na sociedade portuguesa - algo que eu jamais faria mas admito ser plausível e eticamente saudável - seria necessário afirmar uma critica total da sociedade que gera essas dinâmicas ; não basta esboçar,  cabulamente, caricaturas científicas que se assemelham a relatórios policiais ou a resumos de lições de moral de pacotilha...

Enfim, os números do copianço não são um reflexo do nosso mítico culto do laxismo e da bandoleira, mas um atestado da estupidez dos sistemas de exame e avaliação existentes. Fogo neles

 

Anexos:

Criança atacada por um bando de sociólogos: depois de ser apanhada a cabular na sua «prova de aferição» de Língua Portuguesa do 4ºano do 1ºciclo do Ensino Básico.

 

Receita de Sociólogos à portuguesa:

receita do chef Edu Cação.

Ingredientes:

2 kg de sociólogos

2 c. sopa de azeite

3 dente(s) de alho

1 cebola(s)

1 folha(s) de louro

orégãos

q.b piripiri em pó

q.b sal e pimenta

Confecção:

1. Leve os sociólogos ao lume numa panela de água (dois ou três dedos acima dos sociólogos).

2. Junte o azeite, os alhos, a cebola cortada em quartos, o louro, os óregãos e tempere com sal, pimenta e piripiri.

3.A fervura dve ser suave e longa (cerca de 2 horas) e a espuma retirada de vez em quando.

Conserve-os no líquido da cozedura até à altura de servir.

4. Sirva quente em pratinhos com um pouco de caldo.

 

engatilhado por Semeador de Favas às 08:14
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esmolas:
De mescalero a 8 de Julho de 2010 às 17:39
Totalmente de acordo. Este estudo é uma bufaria. Não saberão que quanto mais apertarem o cerco, mais inventivas e elaboradas serão as estratégias de copiar usadas?

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