Terça-feira, 18 de Maio de 2010

Merda. Merdalha. Merdeiro. Merdice. Merdícola. Merdilheiro. Merdívoro*: como transformar o radical merda em merda radical.

Atenção: o título deste texto diz ao que (ele) vem..

Quem teve a sorte de aprender a ler está condenado a ler muita merda: isto é uma sentença irrevogável mas não uma desgraça. Era contudo escusado que a guerrilha ideológica correntemente vertida nos meios de comunicação anti-social se fizesse através de sofismas tão coprofílicos.  Vejamos, a propósito das revoltas em curso na Grécia, como os ideólogos da ordem vigente perdem as coroas de louros democráticas com que se enfeitam diariamente antes de darem à estampa a sua prosa: são os ventos da história que lhas levam para debaixo das lagartas da sua moral de pacotilha, com que tentam há séculos terraplanar a resistência. Ainda bem para nós, uma geração de analfabetos funcionais - burros que nem portas - que não chegou de qualquer modo a compreender o linguarejar desses mortos em vida.

Os artigos a repudiar a violência da «rua grega» sucedem-se à velocidade de um susto - um susto conformista e esclerosado - que tem tanta fome (e fama) de ser opinião que apenas pode aspirar a ser aperitivo para o pensamento que se desenrola fora dos seus mecanismos. A única armadilha que resta ao sadismo burguês, disfarçado de liberdade de expressão e de prensa, para erguer a favor do seu projecto de sociedade é a forma(ta)ção de um público educado segundo a aldraba do falso bom senso, que dispensa as veleidades adolescentes do pensamento crítico. Mas o peixe miúdo que querem capturar -reproduzindo ad nauseum os mesmos argumentos graníticos- não se deixa atrair por isco morto, e é por isso que os jornais «de referência» vão definhando, por culpa própria, a caminho de uma insignificância inexorável. Que não restem duvidas, é sob este  prisma que se deve analisar a actual preferência -que não deve ser confundida com amor- do «público em geral» pela imprensa cor-de-rosa, preferência que não é mais do que um pronunciamento pré-revolucionário; um «estou-me bem a cagar para vós, oh infatigáveis manutensores da afanosa ordem capitalista», mascarado de ignorância. Escolha inteligente, aliás como a abstinência no voto; e a não-abstinência no álcool e no sexo. A desalienação das consciências encontra formas inesperadas de ocorrer e apenas nos podemos lamentar que não se vote menos e foda  (e beba) com mais frequência, em busca daquela consciência política de tal maneira arreigada no corpo que não mais de lá a possam arrancar sem que com ela se vá também a vida2.

A ensaísta Ana Melo Hest (nome fictício), no jornal b, segue uma metodologia particularmente intrincada, que consiste em discorrer sobre uma matéria qualquer para entreter o leitor até chegar ao momento de articular em jeito de estocada -com direito a caixa de texto separada  e em negrito - o seu pensamento sobre a anti-situação grega:

«A condescendência perante a violência desde que ela seja devidamente estetizada à esquerda por umas T-shirts do Che, uns lenços palestinianos ou uns@ capuzes dos Black Blocks é um dos mais hipócritas sinais do nosso tempo. Se estes seres usassem umas cruzes gamadas não se distinguiam nos métodos e tudo se tornava mais óbvio.»

Vejamos como a visivelmente transtornada autora, armada apenas dos seus próprios preconceitos, sem dizer contudo quem estetiza à esquerda o quê, quer matar três coelhos (abstractos) de uma só cajadada: alinhando contra a parede  (o que ela pensa serem) os símbolos de alguns dos seus ódios inimigos de classe, cometendo a proeza de chamar a colação  - pensamos nós- marxistas, defensores da causa palestiniana e anarquistas: um saco de gatos que a autora não hesita em misturar no mesmo bando que os boneheads ostentadores de suásticas. Esta estafadíssima máxima - que os extremos se tocam - já não nos merece senão o seguinte reparo: extremista é aquele que não sabe distinguir o cu da feira de Borba. Adiante.

Que outra razão pode justificar que estes opinion makers -que comem daquilo que cagam e cagam daquilo que comem (num gesto final de desespero e gula)- jurem que os media, onde eles próprios nidificam na paz das espécies desprovidas de predadores naturais - situação que muito em breve se alterará, fruto da introdução de espécies exóticas nesse ecossistema - tenham dificuldade em apelidar abertamente os agitadores gregos de terroristas, e os simpatizantes destes de cumplicidade criminosa, e os restantes de negligência, quando basta abrir as páginas (de opinião) de cada um dos periódicos para - que grande surpresa...- auferir o exacto oposto desse raciocínio, isto é, nenhuma duvida quanto aos autores materiais dos crimes; nenhuma solidariedade para com quem vai à luta; nenhuma abébia aos totós armados em sociólogos que dão, independentemente da distância que os separa da acção, algum respaldo teórico ao movimento.

Tudo isto só pode ser entendido como uma tentativa de despolitizar acções concretas e dilui-las num caldo uniforme de violência gratuita (e,  portanto, completamente imaginária no que a este assunto diz respeito) que apenas pode existir em dois casos: na cabeça de moralistas empedernidos ou de pseudo-pacifistas hipócritas. Gostaríamos de perguntar a esta cronista o seguinte: se, eventualmente, a violência aparecesse estetizada apoliticamente por umas t-shirts do Michael Jackson, umas echarpes Louis Vuitton e uns@ gorros dos New York Yankees seria um sinal menos hipócrita do nosso tempo? E se estes seres usassem umas Estrelas de David (ou uns crucifixos, ou até uns pentagramas  invertidos) - isso faria  contrastar os métodos de acção política do Lobo Mau da estratégia usada pelo Caçador, pela Avó e pelo Capuchinho Vermelho para se verem livres do cadáver do animal faminto que as havia há pouco devorado?

Não se pode responder a este tipo de provocações com seriedade -e não somos nós por certo que gostamos de passar por gente séria - a não ser que nos obriguem, como tantas vezes sucede, a fazer isso contra a nossa natureza: daí que nos possam acusar, com toda a justiça, de não ignorarmos vezes suficientes estes apelos merdosos, que nos fazem através de jornais que nos oferecem em troca de compras via net (no hipermercado X) ou de 1euro e tal (na tabacaria K).

Eli Marcão Nojo (fictício também este seu nome), outro comediante de referência - este no jornal B - pretende possuir a poção secreta  - ou será pólvora seca ? - para evitar a escalada de violência e «extremismo», que (para ele) fazem parte do ADN do povo grego: e de uma tradição que remonta pelo menos ao tempo da conclusão das obras na Acrópole de Atenas.

«O segredo para evitar surtos violentos consiste em saber dosear bem os sacrifícios, na medida indispensável, e saber reparti-los com sentido de equidade. Os portugueses sabem já que eles são inevitáveis.»

Ora, um escriba que necessita apenas de trinta e uma palavras para traçar o que é preciso fazer para deter um fenómeno tão complexo quanto uma convulsão social de massas - e para ditar o que «os portugueses» sabem ou deixam de saber- foi, com certeza, dotado de um extraordinário poder de análise e síntese ou, se não isto, de um descaramento invejável na hora de se pôr a debitar aquilo que melhor nutrir a ideologia da classe dominante. A coisa atinge proporções verdadeiramente escandalosas quando desata a dar exemplos que cimentem definitivamente a sua tese; como as bandeiras negras da fome no Vale do Ave e na península de Setúbal nos anos 80 que, vejam bem (!), nem por isso derivaram em cenas de pancadaria revolucionária nem nada do género; ou o epifenómeno FP-25 de Abril. Que o autor se posicione deste modo face à miséria alheia, aplaudindo com maior vigor a putativa mansidão dos famintos que rejeitando a situação que levou aos movimentos sociais que então se formaram (e os seus métodos de luta), é coisa que não nos espanta. Já a patológica tentativa de retirar daí um retrato sociológico do «povo português» e um padrão de comportamento imutável que agora deva servir de modelo à populaça para atravessar as crises actuais com nota 20 por bom comportamento, é algo que não se pode deixar passar sem a prescrição de um medicamento.  Não seremos nós, contudo, a decidir qual a receita e a respectiva dosagem.

 

Semeador de Favas (caga-no-ninho e ocasional consumidor de cocó)

Quando muitos peixes pequenos comem um peixe muito grande fazem cocó maior,

acrílico, lápis de cor e caneta sobre papel (folha A4),

2010.

 

*Sequência organizada segundo o modelo do Dicionário Priberam da Língua Portuguesa seguindo as coordenadas M-E-R-D (merd).

2Referência à célebre frase que Ulrike Meinhof escreveu numa carta aos seus advogados: «O problema deles connosco, é que a nossa consciência política não nos sai do corpo sem que aquilo a que se dá o nome de «vida» o abandone também.»

engatilhado por Semeador de Favas às 22:53
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