Quarta-feira, 16 de Dezembro de 2009

Recapitulando: Que se abram então as portas dos manicómios e que se deixe escorrer a tinta vermelha dos nossos sonhos (homenagem aos nossos bisavós surrealistas). Prolegómenos à formação das Brigadas Massimo Tartaglia e ao manifesto do PdL (Partido

 dos Loucos

*

 

"Todos sabem, com efeito, que os loucos não devem o seu internamento senão a um reduzido número de actos legalmente repreensíveis, e que, não existindo esses actos, sua liberdade (o que se vê da sua liberdade) não poderia ser ameaçada(...) Foi preciso Colombo partir com um barco cheio de loucos para descobrir a América. E vejam como essa loucura cresceu, e durou."

                                                             André Breton, in Manifesto do Surrealismo (1924)

 

Camaradas,

 

Partimos para este desafio com uma enorme vantagem face aos nossos mais directos concorrentes: a de não termos ainda idade para ter juízo. Todavia, e à cautela, lembremo-nos que já atingimos a maioridade penal e, pior ainda, que já temos a suficiente para estarmos fora da cobertura do Regime Penal Especial. Posto isto... 

Não é costume embarcarmos nas aventuras da "actualidade" mas, porque meteram os malucos ao barulho - e isso para nós é como alguém praticar bullying num amigo de infância -, temos que talhar aqui uma excepção na regra.

Como seria de esperar já começaram, e bem, a escorrer rios de tinta nos blogs da pátria (não fazemos link pois é tudo malta que já sabe comer sozinha); à pala da inesperada transformação em pasta (desta vez sem retoques cirúrgicos) do rosto do primeiro-ministro proto-fascista eleito democraticamente pelo povo  eleitorado italiano.

 

Uma das teclas que os "esquerdistas" rebatem é a do agressor ter "perturbações mentais", enfim, a do desgraçado ser um "maluco" inimputável e que, portanto, ninguém no seu perfeito e democrático juizo, pode daí tirar nenhum plano de acção política. Outra é a de que os lucros desta "acção directa" reverterão directamente para o agredido e para os seus apaniguados. São bons argumentos sem dúvida, mas argumentos ultra-sectários - a que todos os loucos do mundo, felizmente, são insensíveis -, que querem reduzir o juízo sobre qualquer acontecimento à lógica totalitáriautomática dos que se pertendem sãos da mioleira; detentores (e defensores) da correcta definição de sanidade mental que ordena e orienta o mundo.

 

Quanto ao primeiro argumento ele tomba por terra mediante o seu sectarismo: o pacifismo e a sanidade mental, ou a ausência simultãnea de ambos num indíviduo, não podem entrar na paleta da acção politica dos verdadeiros loucos - que devem ser livres de exprimir os seus desejos de maneira ilimitada: por exemplo, através do automatismo psíquico que pode ser, e é-o certamente neste caso, uma estratégia politica perfeitamente aceitável (e praticável) pelos não-loucos heterodoxos - aqueles que, apesar de saudáveis, não se deixam teleguiar pelo pseudo-racionalismo das classes dominantes. A loucura estratégica - a paranóia critica (Avida Dollars), se quiserem - não é todo desqualificável como praxis política.

O segundo argumento é simplesmente apopléctico; mediocre; intestinal: porque o "partido dos loucos" será sempre irredútivel aqueles que lucram com os seus erros tácticos e com os seus calcanhares de Aquiles, isto é: tanto faz que o atentado à integridade física do "duce" tenha sido perpetrado por um louco; por um comunista imputável; por um pederasta; por um esquerdista furioso; por um católico fanático; por um terrorista qualquer; por um porco fascista a soldo do governo italiano para reinsuflar a imagem do seu líder caído em desgraça pública pela via de multiplos e mediáticos escândalos...Porque hoje, ao contrário do tempo em que os serviços secretos compuseram outras cantigas e baladas de terrorismo de estado - como a sui generis aldrabice das "brigadas vermelhas" -, os loucos aprenderam a defender-se e estão preparados para tirar máximo proveito das ciladas que querem armar contra eles. Os loucos puseram-se em marcha! Quem os acompanha?

 A julgar pela onda de apoiantes solidários que se levantou nas redes sociais muitos estão prontos a fazê-lo desde já. Portanto, quer queiram quer não, este acontecimento já extrapulou a eventual agenda apolítica do autor da agressão.

Não se trata aqui de integrar o louco numa qualquer revolução de lavra mentalmente sã, ou de definir os contornos de uma estética da loucura, mas de integrar os mentalmente sãos na revolução dos loucos: os loucos têm uma agenda política própria e um projecto revolucionário concreto.

 

Por outro lado, as medidas que as autoridades italianas se preparam para implementar - como o encerramento dos sites que façam  "apologia da violência" contra o estado - justificam por si só a politização deste caso que trás à superficie, e de que maneira, a natureza das actuais governanças europeias a cavalo na seguinte equação: monopólio da violência nas mãos do estado / condenação (e retaliação) sumária de toda a violência gerada pelo seu monopólio - seja contra estudantes; contra activistas; contra  trabalhadores ou contra os loucos.

Massimo Tartaglia será preso, e se não for preso será internado num hospital psiquiátrico: não importa se arrependido; se auto-flagelado como cobarde em cartas de perdão...está já condenado. Afinal, a nossa sociedade e a nossa psiquiatria civilizadas mantêm a sua repressividade, e a sua velha reputação, absolutamente intactas - não obstante as ordas de humanistas que a sua enorme barriga ostenta. 

E qual foi o crime de Tartaglia? O de irreflectidamente, graças aos seus distúrbios mentais, ter canalizado a violência que esta sociedade reprime, direito à face não de um cidadão como ele - e igual a ele perante as leis - mas à face de um dos "manutensores da afanosa ordem capitalista" (Mário Cesariny) que planam lá no alto, acima de todas as leis que lá do alto projectam para se servirem dos terrestres - mas não, como Massimo provou, acima da nossa pontaria ou fora do nosso alcance. Massimo é acusado de alvejar esta ordem imposta contra à vontade profunda, reprimida e oculta, de uma esmagadora maioria que festeja o brilhante arremeço daquela pequena réplica: multidão que celebra não por gostar de ver velhos elefantes com a tromba esfacelada, ou por ser bárbara, mas porque conserva nos seus breves momentos de lucidez uma elementar noção de justiça. Soará isto a justificação? Quem nunca errou que atire a primeira pedra...à tromba do próximo aprendiz de Cavalieri que se pavoneie na praça da sua aldeia.

 

Isto não é, como alguns querem fazer crer, uma estetização da violência - muito menos da política e da violência política (coisa em que os fascistas, proto-fascistas e semi-fascistas) se especializaram ao longo do século XX e hoje querem reabilitar contra os loucos que trazem um mundo novo no coração. Não. Isto, a traulitada da minúscula catedral no crâneo do Berlusconi, é uma catarse colectiva e um aviso aos poderosos: não andarão por aí descansados a passear a vossa impunidade. 

 

(Mas de uma coisa não nos restam dúvidas: a velocidade a que se abaterá sobre as nossas cabeças a exploração capitalista deste acontecimento será mais rápida que a deslocação do projéctil de Massimo rumo ao rosto de Silvio. Disto somos todos culpados. Apenas os verdadeiros loucos saberão um dia, no seu intimo absolutamente refractário, como resolver este problema, isto é, como liquidar de uma vez o problema da economia.)

 

Existe enfim, no fundo do imenso reservatório que alimenta o moralismo dos "esquerdistas", um simples atavismo do gosto - e isto seria acessório, ou até mesmo completamente irrelevante, não tivéssemos nós condenados a discutir, todos os dias da nossa vida, o nosso próprio gosto. Mas dizíamos que o gosto burguês-naturalista não consegue olhar de frente para a violência gerada no seio da (sua) normalidade; da sua paz social encantadora:

o quadro não lhe fica bem na parede da sala e portanto rejeita-o, sem sequer perguntar ao artista: "porque é tão violenta a tua arte?"

O burguesismo ataca o gosto do hospedeiro e aqui não se trata já de uma condição inerente à sua origem de classe, mas de uma simples patologia que atinge os individuos de todas as classes: expressa através do nojo por todas as formas de expressão que não cabem nos critérios do seu gosto. O doente julga mecanicamente que todos, menos ele e os que partilham do seu gosto, são animais que absolutizam a violência enquanto virtude e estratégia revolucionária. Não vislumbra no grotesco desta ordem social sinais da condição da sua existência.

 

 

Fragmentos da obra de Massimo Tartaglia, Vista da Catedral de Milão ao Anoitecer, Milão (2009)

e de Hermann Nitsch, Das Orgien Mysterien Theater / Theater of Orgies and Mysteries, Salzburg, 1990

 

"É vermelho, tem muito sangue, não gosto".  

 

Por fim, tem de novo a palavra André Breton: "Não vai ser o medo da loucura que nos obrigará a colocar a meia haste a bandeira da imaginação".

 

Anexos:

 

 

Arthur Cravan

 

Este louco, em plena 1º guerra mundial, esgueirava-se "por entre as linhas inimigas (todas para ele eram inimigas) transpunha calmamente fronteiras para visitar amigos que quase morriam de espanto, perguntando-se como teria podido atravessar a Europa para os ir ver"*.

 

 

Jacques Vache

 

Este louco, em plena 1ª guerra mundial, "passeava-se na frente de combate com um uniforme sintético (metade aliado, metade alemão)"*.

 

 

Antonin Artaud

 

Este louco enfrentava sozinho, de bengala em riste, multidões furiosas. Por isso o prenderam, espancaram e internaram para sessões de electro-choques.

 

Resumindo: Camaradas, vejam bem o que temos a aprender com os "loucos".

 

 

*Retirado de 3 histórias3: cravan / rigaut / vache, Edições Antígona, 1980.

 

 

 

 

 

engatilhado por Semeador de Favas às 00:38
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