Quinta-feira, 20 de Junho de 2013

Sentimento Objectivo de Estupidez

Tem dias que os membros do actual governo sofrem de assomos de conservadorite - normalmente é às terças, quintas e sábados, porque às segundas, quartas e sextas é mesmo reaccionarismo puro e aos domingos reúnem-se para conselhos de ministros extraordinários.

Agora deu-lhes para formularem uma proposta que visa reprimir os autores de "grafitis, afixações, picotagem e outras formas de alteração, ainda que temporária, das características originais de superfícies exteriores de edifícios, pavimentos, passeios, muros e outras infraestruturas", aplicando coimas entre os 100 e 25.000 euros.

Especialmente rebuscado o argumento de que estas formas de expressão contribuem "para aumentar um sentimento subjetivo de insegurança em largas franjas da população". Ora, quanto a sentimentos que tais "actos de vandalismo" dispertam em largas franjas da população, eu podia lembrar-me de uns quantos. Por exemplo, o sentimento de que quem os pratica devia ser obrigado a pintar as paredes ou até ser obrigado a limpar as paredes que sujou com a língua; o sentimento de que isto é um bando de gaiatos mal-educados que deviam levar um chapadão nas orelhas a ver se aprendiam a não sujar o que não é deles, ou que é de todos, blábláblá, etc. Agora que os graffiti disseminem sentimentos subjectivos de insegurança, sobretudo numa altura em que se tornaram um fenómeno absolutamente omnipresente nos espaços urbanos, até em zonas ditas de classe média e alta, realizados por betinhos alternativos, é algo que não lembra nem ao diabo.

Um gajo fica então a perguntar-se onde terão estes governantes ido buscar esse "sentimento subjectivo", senão ao seu próprio sentimento de insegurança enquanto governantes, e à predisposição automática para temerem tudo o que cheira a expressão de inconformismo realizada à margem dos poderes instituídos: através de um estudo estatístico efectuado nas cidades onde a street art é comum, ou simplesmente andando pelas ruas, ou nos transportes públicos, a ouvir os que as pessoas dizem sobre o assunto, é que não foi de certeza.

Aliás, tudo fica esclarecido quando o ministro da administração interna faz a ressalva que não se deve "confundir este tipo de atividades com arte que se realiza também em espaço público, em muitos casos em espaços disponibilizados para o efeito". Ora aí está! Desde que devidamente autorizado pelas autoridades tudo se transforma mágico-institucionalmente em arte: temos um duchampiano da contextualização no ministério da administração interna!

Para fechar em chave de ouro, Miguel Macedo "determina ainda a possibilidade de perda dos bens empregues neste tipo de atividades a favor do Estado". Nacionalização dos meios de produção de vandalismo, para pôr ao serviço dos artistas autorizados o que for expropriado aos seus congéneres selvagens, já?

 

 

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Sexta-feira, 24 de Maio de 2013

O Silêncio dos Inocentes

Recentemente a Amnistia Internacional (AI) lançou um relatório em que a polícia portuguesa é acusada de “uso excessivo de força”, tanto sobre minorias étnicas quanto sobre manifestantes. Do mesmo relatório, constam ainda reparos gerais sobre o avacalhamento dos direitos humanos, fruto das medidas de austeridade implementadas nos últimos anos, pintando-se assim o quadro negro que ninguém – seja manifestante, minoria ou simples carne para canhão da austeridade – necessita que o façam por ele.

Pondo de parte os reaccionários mais trauliteiros, para os quais as denúncias da AI serão sempre mariquices de esquerdistas lacrimejantes, temos os que desempenham voluntariamente (ou de forma profissional) o papel de esquerdista lacrimejante, tratando de recuperar estes documentos para a sua retórica estratégica de vitimização permanente do “povo sem poder”: o que perpetua a ideia que a força é património exclusivo do Estado ou das elites governantes, e que dissemina a sensação de impotência que nos transforma em gado a caminho do matadouro, ou da salvação por interpostas vanguardas.)

Temos então que perante o Terror Social instalado e instituído, paira esta tenaz ideológica que o justifica, por aceitação ou falsa oposição, e que nos mantém reféns da presente ordem social, convencendo-nos ora que as coisas afinal não estão assim tão más, ora que estamos mesmo na merda e que não podemos fazer nada em relação a isso (a não ser esperar que a AI, ou qualquer outra organização defensora dos direitos humanos se condoa com o nosso sofrimento, caucionando por arrasto os que querem reajustar à esquerda o capitalismo, restaurando assim a ordem constitucional, democrática e humanista.)

Ora, se queremos escapar a este buraco sem fim por onde escoam todas as nossas energias e boa parte da nossa alegria de viver, teremos necessariamente de deixar de ser vítimas do “uso excessivo de força” - por parte do braço armado do Estado e do Capital, bem como do bolor ideológico onde fermenta, em plena “guerra civil”, a “paz social” -, e passar a ser culpados do “uso necessário de força” a fim de nos libertarmos.    

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Quarta-feira, 27 de Fevereiro de 2013

C'era una volta il Italia (Era uma vez na Itália).

No rescaldo dos resultados das eleições italianas as bolsas afundaram, os mercados tremeram (sensíveis esses gajos), a burocracia europeia enviou recadinhos e os políticos do “arco do poder” de norte a sul, de este a oeste do continente desdobraram-se em declarações de preocupação pelo estado de saúde da democracia representativa-capital-parlamentarista. Enfim, se o “partido da ordem” não admite anormalidades – e a sociedade deve ser gerida como uma grande empresa privada, em que todas contradições devem ser recalcadas a bem da estabilidade do sistema/modo de produção e reprodução social capitalista –, admite de forma aberta ou velada que a política é polícia: manda quem pode, obedece quem deve. Eis o sentido de estado.

Em resposta a isso – e também à tibieza dos que empastelam alternativas que não vão além de uma austeridade de baixa intensidade, de soluços keynesianos, ou de um maior controlo estatal da gestão capitalista – a maioria dos cidadãos italianos votam, ou não votam de todo, com o intuito de fazer as urnas ir pelos ares. Evidentemente que isto é um gesto de pura negatividade e meridiana lucidez, o que é muito diferente de ser um gesto irracional ou irresponsável como querem fazer crer muitos analistas bem-intencionados, que vêem em cada esquina e em cada sobressalto o espectro do “populismo” e derivas totalitárias, que não sendo de subestimar, se deve lembrar que historicamente só se puderam substanciar fruto do pânico das elites, e com o seu apoio, e da diligência com que se reprimiram os movimentos e as organizações revolucionárias.

E porquê toda esta tremideira? Porque um comediante e um movimento inorgânico obtiveram uma votação significativa? Porque os candidatos oficiais ou oficiosos dos mercados foram varridos? Porque não se conseguiu uma maioria estável (de palhaços ou de ursos pouco importa) que garanta um ambiente adequado para os Negócios? Tudo isso com certeza, mas sobretudo a hipótese que a negação da situação se comece a transformar numa situação realmente perigosa para o capitalismo, isto é, que se instale uma instabilidade, uma crise positiva que crie, reorganize ou reconstrua formas de organização e relações sociais anticapitalistas que sucessivas derrotas foram destruindo ou marginalizando e que de resto, em Itália, têm uma história muito rica, ainda que muitas vezes trágica.

Parece fácil caricaturar a história política e social da Itália contemporânea – da Itália saída dos “anos de chumbo” –, ora como tragédia ora como farsa, mas essa simplificação encobre que essa tragicomédia, da qual estas ultimas eleições parecem ser apenas mais um episódio entre muitos, foi, e ainda é, o arranjo de poder e de regime que a aliança de todos os reaccionarismos - dos fascismos reciclados e puros da burguesia italiana à Igreja Católica, da Máfia aos serviços secretos nacionais e internacionais passando pela esquerda mais conservadora - operou durante esses “anos de chumbo”, em que as balas zumbiram e o terrorismo de estado instalou o terror para salvar o capitalismo.

E se em Itália todos os que estão, disputam ou querem destruir “o poder”, sabem do que a classe dirigente é capaz para o manter, também saberão que a herança do operaismo, da autonomia, das greves selvagens e das ocupações, dos índios metropolitanos e da Bologna insurrecta – enfim, daquele Maio de 68 que durou dez anos – tem partes muito suculentas.


   

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Terça-feira, 19 de Fevereiro de 2013

Troika Punks Fuck Off / Relvas has left the building

 Levando em conta que os membros do governo se armam em carapaus de corrida quando expostos à "GrândolaVila Morena", parece que o pessoal do ISCTE não precisou de cantigas para o ministro Miguel Relvas meter a viola no saco (e o rabo entre as pernas) e se raspar dali para fora.

Todavia não é caso para a malta desistir da salutar e ainda operativa máxima "a cantiga é uma arma", sendo talvez necessário alargar o repertório a temas mais cortantes (quer o objectivo seja só aparar a relva ou amputar parte [ou o todo] do governo).

Sugiro o clássico dos Dead Kennedys, "Nazi Punks Fuck Off", ligeiramente desviado para "Troika Punks Fuck Off": não só para o adaptar ao contexto, mas também para a malta não ser acusada de relativizar o nazismo encobrindo a careca dos verdadeiros neo-nazis que por aí andam (ou para cá caminham).

 

    

 

 

 


  

 

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Quarta-feira, 13 de Fevereiro de 2013

Let's twist again (like we did last [hot] summer)

Existe uma dimensão festiva e adolescente na gestão da corrente crise no capitalismo que é tão evidente que os comentadores e teóricos parecem não sentir necessidade de trabalhar sobre ela. À parte alguns sisudos e circunspectos, que volta e meia acusam o governo de ser um bando de gaiatos que andam a brincar com a vida das pessoas, o tom geral é de grande seriedade (a maior parte das vezes encenada ou simulada) na abordagem especializada aos assuntos económicos e financeiros, em si mesmos algo tão louco e alucinogénico que é difícil compreender como é que pessoas que parecem estar imersos neles não se escangalham a rir de cada vez que calha irem à televisão destilar sobre isso, dando largas à bebedeira. Mas existe mesmo uma festa em curso. Um verdadeiro arraial reaccionário, em que governo, ideólogos, capitalistas e representantes das instituições internacionais fazem o que (e como) lhes apetece, tendo o cuidado, como é evidente, de colocar uma máscara de inquietação quando falam em público: essa é a parte carnavalesca da pandega. Como é evidente, a festa destes gajos não tem graça nenhuma vista cá debaixo, não só porque se estão a divertir à nossa conta, mas também porque não sabem, nem podem, brincar sem nos foderem as vidas. Assim, a festa é uma cena exclusiva, macabra e lúgubre que - apesar da forma reiterada e vigorosa com que o pessoal diz “vão mas é brincar com o caralho!” - continua. Mas isto não tem que ser sempre assim. Quando invadirmos os salões de festas; quando organizarmos as nossas próprias festanças; quando nos começarmos a divertir à grande, as classes dominantes tremerão.
Quem dança por último dança mais fixe danças mais fixes.

 

Terça-feira, 18 de Dezembro de 2012

Vamoláver sagente sentende

   Independentemente da análise estratégica e táctica que ocorra a cada um fazer acerca da atitude dos manifestantes [“pacíficos e não pacíficos”] que participaram na manife de dia 14 de Novembro em Lisboa (no dia da Greve Geral), importa desconstruir um certo discurso produzido em diversos textos publicados nas redes sociais por pessoas que foram vítimas da carga policial e das detenções arbitrárias que a sucederam. Um discurso que, alimentado pelo refluxo do pânico e da adrenalina que ainda percorrem o sistema dos que sofreram na pele, muitos pela primeira vez, a brutalidade policial, pode conduzir, se mal digerido ou oportunisticamente aproveitado, a um perigosíssimo crescimento de tendências para o auto-policiamento e auto-repressão do movimento de combate ao presente autoritarismo capitalista.

   Preocupa-me o seguinte: a facilidade com que muitas pessoas estão a aceitar ou a caucionar o discurso oficial, que visa como sempre dividir para reinar e reinar para manter a ordem, prestando-se a isolar – através da condenação abstracta da “violência” – os manifestantes mais aguerridos do corpo “pacífico” da manifestação, como se estes se tratassem não de companheiros com formas de luta (e de estar) diferentes das suas, mas como corpos estranhos (a meia-dúzia de “radicais”, “profissionais da desordem”, etc) que todos os movimentos sociais poderiam expelir do interior das suas acções e entregar de mão beijada às garras dos órgãos de repressão do estado.

   A irrepreensível lógica maniqueísta, ainda que bastante mais tímida entre “manifestantes anónimos” do que entre os figurões da esquerda institucional que têm muito a perder, que divide a malta em bons e maus manifestantes, assenta contudo em premissas completamente falsas. Desde logo porque tende a ver as “formas violentas” de protesto como uma especialização de determinados grupos mais marginais, isto é, como uma questão de estilo e de mau feitio prejudicial ao protesto, e não como expressões de revolta, mais espontâneas e caóticas ou mais organizadas, que se podem desenvolver a partir de todos os sectores da sociedade afectados pelo actual ciclo de proletarização e empobrecimento. Depois, porque parece dar a entender que apenas seria necessário controlar os mais combativos, impedindo-os de se expressar e existir, para esvaziar os ânimos dos mais exaltados – que são visivelmente cada vez mais – que já não conseguem ouvir apelos à calma e à ordem sem soltarem uma gargalhada de desprezo.  

Entendamo-nos quanto a este ponto. Tudo o que se conseguiria através de uma colaboração tácita com a bófia no que diz respeito à circunscrição do que se entender serem “agitadores violentos”, isto para além da óbvia equivalência a bufo e canalha, seria empurrar o pessoal que vai dando passos pequenos mas firmes da raiva pura para alguma coordenação com sectores politizados para uma posição de desespero e desprezo para com os movimentos sociais (atitude que seria, diga-se, totalmente justificada).

Sendo a síntese entre a raiva pura e a politização (substâncias que cada um doseia de acordo com as suas necessidades e/ou possibilidades) antídoto contra o tédio e contra as cristalizações ideológicas paralisantes, esta quebra de solidariedade entre manifestantes mais e menos pacíficos – quebra que sempre e em qualquer parte é a morte de ambos os artistas – teria ainda como consequência um extremar de posições que levaria a um regresso ao sectarismo identitário que apesar de tudo se tem conseguido diluir nos últimos tempos num caudal de protestos bastante heterogéneo: heterogeneidade que se deve também em boa parte a ter sido abandonada aquela cena um bocado ridícula das manifestações parecerem cortejos fúnebres em que ninguém podia mijar fora do penico sem levar nas orelhas, ou aquela outra não menos patética dos “ultra-revolucionários” não lá porem os pés por tudo aquilo tresandar a folclore de neo-hippies requentados.  

A violência será sempre um tema fracturante, mas ou se discute sem preconceitos e dogmas, ou se continua a iludir entre outros o seguinte facto. A polícia não carrega ou deixa de carregar sobre manifestantes em face do seu comportamento ser mais ou menos combativo, mas sempre que as condições no terreno são favoráveis ao sucesso de uma carga. Por tudo isto, discutir se uma carga policial é culpa destes ou daqueles manifestantes, se não é uma pura perda de tempo, é pelo menos um convite à desunião. Não uma desunião qualquer, mas uma desunião que não é fruto da crítica mas do medo induzido pela estratégia que as autoridades delinearam tanto de um ponto de vista operacional quanto comunicacional, isto é, no que diz respeito à informação e contra-informação debitada nos média pelos ideólogos do costume. 

Finalmente, a inoperatividade total da lógica da batata. A policia usa (usou sempre que lhe mandaram) agentes infiltrados (e quando calha provocadores), vai daí os lógicos indignados exercem a sua arte: se os provocadores violentos são polícias infiltrados, então todos os manifestantes violentos são polícias. E se não são polícias fazem o trabalho sujo da polícia.

Se é para irmos por este caminho então eu socorro-me de uma deliciosa bujarda que a boa e velha communarde, Louise Michel, um dia largou: “nós adoramos ter agentes provocadores no partido, porque eles propõem sempre as moções mais revolucionárias.”  

Graçolas à parte. Quando a conversa chega a este ponto então a táctica do medo atingiu plenamente o seu objectivo, que é o de desestabilizar emocionalmente, desorientar e virar os manifestantes uns contra os outros. Dito de outra maneira, quando a paranóia se instala está o caldo entornado. A partir desse ponto já não é possível coordenar nada, a solidariedade cessa, o protesto vivo e verdadeiro (qualquer que seja a sua forma) estiola e morre, e no seu lugar fica uma carcaça que pode ser manipulada a bel-prazer dos porta-vozes da polícia e a quem aproveita a ideologia dos “brandos costumes”:

a Nós não.  

 

 

 

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Sexta-feira, 14 de Dezembro de 2012

Solidariedade (Palavra à solta. Todas as demais entre parêntesis)

   Não só através da luta pelos seus direitos económicos (que é sobretudo resistência à tentativa de implementação final e aprofundamento da precariedade laboral nos portos portugueses e das suas consequências), alicerçada numa consciência de classe irredutível perante a arrogância e tom intimidatório do patronato e dos seus braços político-ideológicos, mas também da sua presença constante nas manifestações que se sucedem dentro e à margem do movimento sindical, os estivadores são um exemplo prático de como a organização e a coesão de um grupo em torno das suas afinidades e interesses e, simultaneamente, a abertura desse grupo a outras formas de estar e ser, – abertura feliz, por ser simpática e por ser tacticamente eficaz – são indispensáveis para enfrentar a proximidade da repressão e a sensação de impotência, desespero e desamparo que muitas vezes se apodera de quem combate na rua, na prisão, no bairro ou no trabalho (e em qualquer parte) todas as formas de opressão que reinam debaixo do céu capitalista, cada dia mais opressivo.

  Mas para que este exemplo vingue, quer dizer, para que ele possa ser aproveitado por muitos – mesmo por aqueles que de um modo geral desconfiam das peripécias limitadas ao mundo [do trabalho VS capital] de hoje –, é necessário atingir o ponto de irradiação daquilo que se julga exemplar.

Para extrair da luta dos estivadores algo que pode ser comum a todos, é totalmente inútil cair no fetichismo das identidades e das formas [de luta] que aqui ou ali se confundam com elas: no caso uma identidade operária específica dos trabalhadores portuários, que de modo fetichista poderiamos idealizar enquanto expressão de uma cultura operária/guerreira supostamente em vias de extinção, facilmente redutível a uma estetização masturbatória de petardos e slogans mais hardcore que o costume.

A questão não é contudo fazer a esconjuração das identidades, nem sequer impedirmo-nos de desfrutar da estética que nos pareça mais fixe ou com que nos sintamos melhor, mas tão simplesmente desembaraçarmo-nos dos fetichismos que impedem objectivamente a radicalização das coisas ou, o que vai dar ao mesmo, atrasam a concretização de situações à altura da radicalização que o próprio contexto económico-social já é. Isto é, que a luta dos estivadores, quer dizer, o que torna possíveis os petardos, a desenvoltura com que se lida com a bófia e o resto, tem muito menos a ver com tomates e testosterona do que com aquilo que é a base de qualquer movimento social, passado ou presente, com perninhas para andar: a SOLIDARIEDADE.

Porque apenas se pode disfrutar de uma luta se existir solidariedade. Não existindo solidariedade, o que existe, tomando o seu lugar na luta, é o “aguenta-te à bronca!”. Porque nos tempos que correm tornou-se perigoso que alguns estejam na luta como quem está na roda gigante, calma e confortavelmente aguardando o ponto mais alto para ter a melhor vista, a mais científica ou céptica, sobre os conflitos sociais, enquanto outros vão na montanha-russa, sendo sacudidos e atirados de um lado para outro pela máquina capitalista, enquanto outros ainda se recusam a pôr os pés no parque de diversões, apesar de serem tão afectados pelo resultado dos conflitos como os directamente envolvidos.

Por isso só existem duas saídas: ou nos divertimos todos juntos, ou vamos juntos todos bardamerda.

Os estivadores deixam aos vários futuros (não a todos) o seu parque de diversões de caminhos que se bifurcam.

 

 

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Segunda-feira, 29 de Outubro de 2012

“fo(le)go” .Teses de Outono e de Inverno. [ Sobre arte, política, revolução e cenas ]

            “Encontramos, no folclore de muitos povos, heróis ou animais mágicos que, pela primeira vez, se apoderam do fogo, quase sempre subtraindo-o aos deuses. (…). Independentemente do modo como foi obtido, não deixou de ser revolucionário uma vez iniciada a sua utilização, mesmo que as suas capacidades totais só viessem a ser aplicadas mais tarde. (…) Tornou-se igualmente possível cozinhar os alimentos, o que simplificou, por sua vez, o seu consumo: as medulas são facilmente extirpadas de um osso cozinhado, enquanto que a sua extracção de um osso cru é um processo deveras laborioso (…) Para além de uma forma luminosa e calorífera, o lume desempenhou o papel de incentivador do sentimento comunitário através do poder de congregar as pessoas à sua roda, depois de escurecer (…) Finalmente, o fogo terá provocado também divergências entre os membros de cada grupo. Apareceram zeladores e especialistas do fogo, elementos receados e misteriosos, dos quais dependia a sobrevivência do grupo.”

        in A Origem do Homem (História Ilustrada do Mundo), J.M Roberts.

  1. Can`t start a fire without a spark

Se existe algo que urge de uma redistribuição radical e anárquica é o (poder de e do) fogo. O fogo pode ser o exército dos amantes a desertar em classe de todas as guerras inúteis (da “Morte”; das “Massas”; das “Identidades”; da “Produtividade” e da “Improdutividade”; da “Acção” e da “Inacção”; do “Activismo” e do “Conformismo”). O exército dos amantes a invadir as cidades alpha e os desertos, as selvas e as savanas – desfazendo-os e desfazendo-se, remixturando-se uns e outras em labaredas semi-conscientes – samples incandescentes daquilo que já fomos, somos e seremos – (re)constituindo-se; as cyber-guerrilhas a tornarem-se carne e osso e unha com carne e órgãos sexuais e sensoriais absolutos; os jovens dos subúrbios de Londres a incendiar e expropriar mercadorias numa noite de Verão; uma enorme fogueira à porta do parlamento no Outono; a raiva no olhar. Uma troca de olhares. Uma troca de roupas. Uma troca de máscaras. Uma troca de gestos. Uma troca de tudo.


O FIM DO MEDO. A MORTE DA MERCADORIA.


De vez em quando um ser humano (o que é isso?) – por si próprio ou em comunidade – redescobre o fogo. Fá-lo sem precisar da autorização dos que zelam dia e noite para o manter afastado das fontes de ignição e dos materiais inflamáveis de que necessita para se fazer incêndio. Não há deuses. Há zeladores que dizem que são de direita, outros que são de esquerda, outros apartidários: a puta que os pariu a todos! A puta que nos pariu a nós!


Os Last Poets escreviam e cantavam que quando a revolução viesse as armas e as espingardas tomariam o lugar dos poemas e dos ensaios. Isto, que eles diziam, escreviam e cantavam, e que qualquer ultimo poeta antes da Revolução devia escrever e cantar, não significa que a “poesia” expelida do cano das espingardas é uma forma estética mais plena ou avançada que a poesia disparada das cargas das esferográficas, das minas dos lápis, do teclado ou da lata de tinta, - o que, na melhor das hipóteses, não seria mais que uma declinação retro-bélico-futurista requentada – ou que algum dia tenha vindo ou venha (par)a substituir esta ultima, mas que quando a insurreição estalar – de modo a não permitir já qualquer recuo aqueles que se dedicavam a actividades poéticas pré-revolucionárias – não se poderá regressar à poesia (seja ela mais apolínia ou mais dionisíaca, mais lírica ou mais anti) até resolver vitoriosa ou derrotadamente o enigma do fogo – que é também o enigma da "poesia" e o enigma das "armas": A Poesia é Vida. É por isso que nunca foi visto um morto – vivente ou cadáver – escrever um poema notável.


Aqueles a quem a sociedade atribui – se é que a sociedade como um todo atribui o que quer que seja, o que quer que seja A SOCIEDADE – o estatuto de artistas, terão mais tarde ou mais cedo de passar na prova do fogo, na qual, vendo-se repentinamente em Rodes depois de uma longa viagem em que não fizeram outra coisa que não gabarem-se do prodigioso salto que um dia lá deram, ouvirão: - Aqui está Rodes, mostra lá do que és capaz, outra vez!


Nesse momento, já não lhes bastará desenterrar apressadamente as pirotecnias da dialéctica – o seu sensual jogo de cintura; a imagem xamânica dos filósofos capazes de cuspir fogo e dos loucos capazes de destruir igrejas –, ou adquirir todos os fogos-de-artifício que ainda restem algures no mercado negro; admitindo, tarde de mais, que o que é bom tem que deperecer, para ressurgir um dia sob uma forma mais avançada: é que entre o momento dessa consciencialização retardada e o de a lançar aos quatro ventos já a poesia foi liquidada e, com ela, todas as anteriores certezas: Jesus Cristo estará numa esquina à espera do primeiro táxi para se pisgar dali para fora. E eles, bem como os restantes especialistas, estarão desempregados. OU VIVOS.



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Quarta-feira, 26 de Setembro de 2012

O “bicho-troika” demonstra uma vez mais aos alunos mais esquecidos como se extrai a mais-valia: século XIX motherfucking style.

 


 

Às vezes, o pessoal mais céptico em relação a quaisquer teses, sensibilidades ou opiniões, anticapitalistas, acusa o pessoal que as afirma radicalmente – de analisar (e criticar), o actual momento social e económico, através de instrumentos teóricos e conceptuais que seriam uma espécie de lentes especiais desenhadas para observar de perto, ou à distância, a sociedade capitalista industrial do século XIX e “fazer saltar” as suas mais grosseiras características: para, sádica e masoquisticamente, seguir uma ordem de ideias (marxista, bakuninista, comunista, anarco-comunista, etc) tão desajustada ao capitalismo do presente, afirmam eles, que apenas nos podem conduzir à criação de monstros imaginários ou, na melhor das hipóteses, a grotescas caricaturas da sociedade capitalista dos nossos dias.

Ora, quando as instituições europeias e globais do capitalismo, forma-troika, sugerem ao governo troikista grego que imponha aos trabalhadores um aumento da semana laboral, e da própria carga horária diária, reduzindo os períodos de descanso entre turnos, a redução dos subsídios de desemprego e da sua extensão – tudo isso sobre um desemprego que galopa estigmatizando os que não o têm e sobrecarregando os que o têm, entre outras medidas que atingem os serviços sociais da comunidade (e a sua capacidade de resposta às necessidades) –, são essas mesmas instituições que se encarregam de desenhar a própria auto-caricatura do capitalismo tardio, com traços de regras laborais dignas do século XIX; tornando assim cada vez mais irresistível a afirmação que verbera por toda a parte: “não somos nem mais nem menos radicais do que os tempos que vivemos”.

Assim, a iminência dos retrocessos sociais aplicados em todos os países em que a receita da austeridade faz o seu caminho (na qual o governo português é, a todos os níveis, o campeão incontestável), mostra-nos como a violência da história desaba sobre as nossas cabeças; e como alguns postulados da crítica da economia política e da acção anticapitalista não perderam uma gota da sua pertinência (ainda que a sua teoria e práticas estejam em permanente actualização). Houve um tempo – principalmente durante a segunda metade do século XX, durante a qual o Estado (do bem-estar) Social foi sendo edificado, a diferentes velocidades e profundidades nos diversos países europeus – em que foi necessário pensar por que motivo o desenvolvimento capitalista não tinha conduzido ao empobrecimento progressivo da classe trabalhadora – como Marx previra –, e que viria a conduzir necessariamente à revolução social que derrubaria a ordem capitalista. A resposta a esta contradição (que levou muitos abandonar o campo anticapitalista e outros tantos a usarem-se dela para demonstrar o “pecado original” das posições revolucionárias) e, finalmente, para justificar o capitalismo e a ele aderirem plenamente, foi a de que Marx (e os diversos marxistas e marxismos) – e por tabela todas as tendências revolucionárias – extrapolara, como tendência do capitalismo do berço à cova, partindo da forma da exploração do trabalho da sua época, que era conduzida – como descreve Anselm Jappe, no seu ensaio sobre o contributo teórico de Guy Debord – por uma “burguesia que continuava empenhada em defender formas na verdade pré-burguesas, como os baixos salários ou a exclusão dos operários dos direitos políticos, formas que o próprio movimento operário identificava equivocamente com a essência do capitalismo.”

Esta actualização, que Debord (e a Internacional Situacionista) levaram a cabo, bem como as análises efectuadas pela revista Socialisme ou Barbarie, ao longo dos anos 50 e 60, em França – concluía que o capitalismo se tinha finalmente, e de uma vez por todas, libertado do lastro da servidão pura e dura, e que a partir desse momento se poderia arriscar uma nova teoria, concluindo que a tarefa não seria já confrontar a burguesia com a miséria do proletariado (e o proletariado com a sua miséria económica), mas sim o proletariado com a própria miséria da sua vida quotidiana integrada no capitalismo avançado: e aí procurar as forças necessárias para o desencadeamento de uma nova vaga revolucionária (que confrontasse o capitalismo nos seus novos limites, que não eram já apenas os do lugar de cada qual, e das classes como um todo, no sistema de produção, mas também o modo de destruir na sua totalidade o novo e complexo sistema de alienação, que era o reverso da medalha das conquistas sociais). Esta actualização, que até podemos considerar a mais radical e sintonizada com o seu tempo (ao fim ao cabo o nosso tempo), está desactualizada (se tivermos ambos os pés no Presente e os olhos no Futuro). A não ser que a fé num hipotético “carácter transitório da crise”; numa milagrosa reforma moral (humanista) do capitalismo, ou uma sobrevalorização da sensibilidade social (inteligência estratégica) dos manutensores do capitalismo, se sobreponha à consciência dos retrocessos que já estão em marcha: sob a forma de uma proletarização violenta, em sentido estrito e clássico, de grandes camadas da população; despindo-as dos meios económicos que lhe permitiriam reproduzir com dignidade o seu modo de vida (o que em austeritarês se chama “viver acima das suas possibilidades”), para as colocar em carne viva na montra da exploração e da humilhação social: sob forma de trabalho precário, salário de merda, subsídio ou pensão de miséria, ou da caridade.

Em Portugal, a manobra que incluía a expropriação Estatal de salários e a sua transferência para o Capital, sob a forma do acréscimo violento da taxa da segurança social a ser suportada pelos trabalhadores está, fruto do levantamento popular massivo contra tal descaramento, morta: outras continuam de pé e outras tantas se preparam. Se é verdade que esta medida vez estalar de vez o verniz do “consenso social” que os braços políticos do capitalismo em Portugal tanto gostam de usar à lapela enquanto rastejam aos pés dos seus credores – que querem fazer passar por credores de todos os que agora queriam a “comer e calar” para sempre, e não só a estes mas também aos seus filhos e netos ainda por nascer –, também é verdade que fica claro, e já ninguém o consegue ocultar com jeitinho, que o capitalismo entrou por vias desesperadas no intuito de acumular capital: e que esse desespero (ou necessidade capitalista, se preferirem) é mais forte do que o “consenso social” que, de repente, se torna um empecilho. Se mais provas fossem necessárias para verificar as contradições em que se afunda o capitalismo é ver os grandes patrões tugas a erguerem-se contra o governo que pagaram para ter, porque sabem – e nisso são realmente mais sensatos do que os ultracapitalistas que hoje se encontram aos comandos do Estado – que não podem sugar indefinidamente o sangue à manada sem que esta mais tarde ou mais cedo diga, “basta!”. A mesma percepção têm também os ideólogos e especialistas que ainda ontem queriam que se espremesse sem piedade os rendimentos e os direitos dos trabalhadores (porque eram um crime de lesa economia de mercado), e hoje já acham que assim também é de mais. Será isto, sensatez? Não, são simplesmente as elites a chafurdar na lama da crise no capitalismo que elas próprias criaram, fazendo o que podem para salvar a sua pele (despindo-a da anterior doutrina) e para evitar que a falta de tacto deste ou daquele governo resvale para uma crise do capitalismo. É pânico: a água gelada da consciência das contradições do sistema a chegar aos tomates da burguesia: que a maré continue a encher.

Aparentemente, o Capitalismo com que nos defrontamos hoje, vai – se o seu movimento não for sabotado – corroer de tal forma as bases materiais da nossa sobrevivência (e as formas políticas, mais ou menos hipócritas mais ou menos democráticas, que a revestem), que já não poderemos contra-atacar apenas com uma “revolução da vida quotidiana” ou com os instintos inatos que nos dizem que a Vida (e Viver) não é bem isto que nos servem; que devemos juntar a essa centelha de liberdade o combustível que é a recusa de nos podermos vir a tornar uma espécie de escravos modernos. Esta síntese pode impedir que nos afundemos em dogmas economicistas e em militâncias parvas, mas também de fazermos de conta que estamos nos anos 60, 70, 80 ou 90 – na França, em Itália, na Grécia ou em Portugal – consoante as boas ondas de cada período contestatário da época; em que as teorias revolucionárias mais apelativas (e que ainda o são) eram simultaneamente as mais certeiras (e que agora talvez já não são). Cabe-nos afinar ,uma vez mais, a pontaria.

O que dizer portanto, hoje, quando se tornou quase um lugar-comum admitir que o capitalismo mundial possa impor de novo um (ciclo de) empobrecimento das classes não-burguesas como modelo económico (em chavão austeritarês descodificado: empobrecer para poder competir), não só nos espaços em que tal nunca deixou de existir (nos polos de manufactura do chamado “terceiro mundo” e nas “economias emergentes”) mas também em “países periféricos” no coração dos grandes centros da burocracia capitalista (e que com ele partilham, aparentemente, o mesmo espaço político, económico e cultural?

Que o capitalismo perdeu a cabeça, e com ela a elasticidade (que os revolucionários do passado não podiam de facto prever) que lhe permitiu adaptar-se às exigências de melhoria dos níveis de vida das populações; poder de recuperação que lhe permitiu, aliás, evitar revoluções sociais que o superassem ou destruíssem, ao mesmo tempo que lhe possibilitou a expansão e a criação de um exército de consumidores médios que ainda sustenta a sociedade da mercadoria tal qual a conhecemos?

Que “o capitalismo” se julga de tal forma bem apetrechado, no que diz respeito aos meios e técnicas de repressão, que já nada tem a temer de qualquer disrupção social nos seus domínios? Que a ideologia secou por completo a memória das revoltas e das conquistas passadas (e o seu saber-fazer), implantando por toda a parte, senão o conformismo total, pelo menos um inconformismo que apenas se expressa sob formas alienadas (isto é, sob formas ideológicas derivadas do próprio capitalismo)?

Ou será que uma crítica radical do mundo existente não nos conduz necessariamente a verificar no presente ciclo de empobrecimento uma reactivação por automatismo – isto é, independentemente do que os agentes do capitalismo pensem saber e conhecer sobre o todo da sociedade que gerem – de mecanismos de exploração e acumulação que estariam apenas a ser usados a meio-gás, num contexto propício à paz social (que nunca deixou de ser uma guerra latente com focos de conflito dispersos), mas de que maneira nenhuma configuraria a forma final – ou sequer a forma mais pura e moderna – do modo de produção e exploração capitalistas? A entender que o Capitalismo encontrou a sua forma de escrita-automática, com a qual pode libertar o seu estado interior, isto é, a irracionalidade e a barbárie reprimidas: que apologistas liberais, neoliberais ou simples reaccionários passaram vidas a tentar racionalizar, que apenas pode ser mitigada à força de lutas sem tréguas?

Ou talvez isto:

Estamos barricados no domicílio dos nossos corpos, não por iniciativa própria, mas porque nos fecharam as portas de acesso ao presente, esse que se apresenta bafiento, embaciado e contaminado pelo vício d'um sistema que se nos impõe como um Deus incombatível, omnipresente e com tiques de malvadez.

É perante este quadro, e nele, que temos de agir; mas porque a hipocrisia não é a nossa especialidade académica e não se ergue em nós qualquer possibilidade de com ele compactuar é, em primeiro lugar, dentro de nós que o confrontamos quando procuramos reequilibrar-nos após cada queda por este providenciada; depois, há que calibrar as armas, treinar a pontaria e disparar contra todos os alvos visíveis (não se preocupe o SIS, pois não se tratam tais alvos de humanos!). Porque é disso que se trata, de uma guerra pela dignidade, pela justiça, pela progressão da vida, da humanidade, do equilíbrio. E toda a história se escreve através do combate incansável de gerações inteiras que se viram nesta mesma situação perante um sistema que lhes não serve. As portas só a elas se abriram quando pequenas grandes batalhas foram vencidas.

Este é o ponto fulcral de que todos devem tomar parte (que de consciência já todos estamos fartos!). A sociedade em que “vivemos”, e não me refiro aqui somente à geograficamente limitada sociedade portuguesa, é doente, toxicodependente, paranóica, vazia de sentidos. As vistas curtas que a alimentam como se a história tivesse já chegado ao seu fim como se, de agora em diante, apenas fosse aceitável a reprodução de um passado fracassado, exigem uma ruptura profunda que se abra à Vida, e isto, só é possível com a participação activa, audível, efectiva de cada indivíduo; não o indivíduo individual e individualista, mas o indivíduo colectivo, aquele que transporta em si a capacidade de gerar, de gerar a diferença e a alternativa – esse conceito tão em voga que de tão pouco espaço-tempo tem usufruído para que se autoinvente sequer. Sem que a invenção possa dar lugar à criação materializada de uma nova realidade, se negarmos esta necessidade primária da vida conjunta, pouco restará que valha a pena.


                                                          Semeador de Favas; Cagarripa, 2012.

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Segunda-feira, 3 de Setembro de 2012

De como se auto-decapitar com um corta-relvas ou outros objectos pouco cortantes VS Organizemo-nos Chaval@s.

Organizemo-nos Chaval@s

 

Olhando de relance, apenas até aos Pirenéus porque a preguiça é muita (e está um calor do caraças), aqui nos confins da Península Ibérica.

Nas Asturias mantém-se uma greve por tempo indeterminado, que não deve ser medida pelo tamanho do desespero (que não deve ser pouco) das mulheres e homens que têm o seu meio de subsistência ameaçado, porque apenas pode ser mantida, na forma e no conteúdo que lhe deram os trabalhadores, por estar profundamente enraizada numa cultura operária que transporta o sentido da dignidade humana, revestido e recheado pela memória e pela sua história: uma história de sacrifícios, de conflitos, de uma vida fodida (experiência de classe), mas também de Revolta e de Revolução (consciência de classe), e através de uma solidariedade que muitos julgavam enterrada para sempre, juntamente com a própria ideia de Classe, pelo menos na Europa Ocidental, entre os escombros das ultimas derrotas da década de setenta/oitenta, quando os avanços das sucessivas vagas conservadoras e ultra-capitalistas, e uma agressividade ideológica cada vez mais unilateral rumo à mercantilização de tudo, quase desarticularam por completo o antigo movimento operário organizado – e com ele a força das suas reivindicações – e fizeram dispersar (mas não desaparecer) os núcleos mais radicais (ou pelo menos as suas raízes), as associações formais e informais de indivíduos, que quiseram manter viva a chama de todo o património histórico, património comum, antigo e recente da luta de classes, e portanto a memória da revolta, pronta a ser reactivada.

Dirão alguns que o (interesse do) movimento dos mineiros asturianos e o regresso das barricadas (e dos cortes de estradas, dos lança-foguetes improvisados e das marchas) é apenas “arqueológico”: o estertor espectacular e apoteótico do que resta do “velho proletariado” (de um espaço económico pós-industrial) que se recusa a desaparecer sem ser em grande estilo; uma última representação do poder de fogo dos antigos sujeitos políticos da Revolução (assim com letra maiúscula); que acontecimentos do mesmo tipo se podem repetir, até tomar maiores proporções, ali e em outros lados, à medida que a imposição de austeridade for fazendo mais vítimas, sem que isso signifique outra coisa que não o repisar simbólico dos que já não tem nada a perder (ou a ganhar) aqui. E também pode ser que se enganem os académicos e os cépticos, visto que o futuro não está escrito e todos os desenlaces serem possíveis quando se abre o baú dos processos e dos desejos, das ideias e das tácticas e enquanto se possa dizer: Que se foda se não pudermos vencer, talvez nos possamos vingar!. Este (e outros) “que se foda”, são aliás a única maneira de cortar com o presente, como o foram com outros Presentes passados, e de iniciar qualquer esboço de futuro aos que chegaram tarde de mais à festa da Democracia, do Mercado e do Estado Social europeus: isto é, nós. Ou devemos contentar-nos com os restos?

Seja como for, as acções contundentes e despidas de preconceitos formalistas (ou pelo menos de formalidades cidadanistas) praticadas pelos mineiros (e pelos que solidariamente se juntaram ao seu protesto), tiveram já o condão de arejar as bafientas e bizantinas discussões sobre o modo como se deve estar nas lutas - resistência pacifica vs acção directa violenta, etc – e deixar essa questão em aberto, para ser respondida com o que se pode e deve fazer nas ruas, e com as solidariedades mais ou menos (in)formais, que se formem a cada momento. Quando se desbrava esse território de falsas antinomias torna-se mais fácil – e não uma questão identitária entre “vândalos anarquistas” e “progressistas pacíficos”, por exemplo - que outros, menos afoitos e/ou experientes, mas igualmente dispostos a lutar pelo que lhes pertence, se organizem para lutar e disfrutar das lutas com os meios a que se dispuserem deitar mão, sem que se aliene necessariamente aqueles que por esta ou aquela razão jamais abandonarão a via exclusiva da “não-violência”: talvez assim nos possamos animar (e contagiar) reciprocamente, quer dizer, solidariamente.

É mais ou menos evidente que nas terras de Espanha, o “exemplo dos mineiros” está pelo menos a ter um efeito animador em quem está decidido (ou em vias de se decidir) a combater o capitalismo (ou mais timidamente a presente austeridade, o que é e não é o mesmo). Em Valência, trabalhadores ocuparam os estúdios de uma estação televisiva à hora de jantar o espectáculo da informação – experiência que já tinha sido realizada na Grécia – utilizando os meios espectaculares por excelência à disposição, invertendo-os para dar uma dose de realidade social aos espectadores (até que foram interrompidos pela emissão de um documentário, esperemos que igualmente pedagógico, sobre o fundo do mar). Em Madrid, após a manifestação oficial dos mineiros que realizaram uma marcha de protesto de centenas de quilómetros desde as suas regiões até à capital de Castela, milhares de pessoas – para dar continuidade e expressão, e prestar solidariedade, aos mineiros que regressavam a casa – mas também para impulsionar a sua própria (forma de) luta – recusaram-se a voltar para casa, e ficaram nas ruas, algumas combatendo a polícia anti-distúrbios, outros a fazer o que bem entenderam com as suas vozes e os seus corpos, rejeitando, todos, a ideia de que as manifestações tenham recolher obrigatório, ou que um dos objectivos das lutas sociais seja obter (das forças da ordem) medalhas de bom comportamento.

Longe de querer amalgamar vários protestos de origem e motivações diversas, que a qualquer hora veremos divergir pelas contradições existentes entre si, quer dizer, à medida que as lutas amadurecerem, isto é, se se conseguirem manter, e se possa verificar que estratégias se tornaram dominantes (ou que tiveram mais fôlego), gostaria de pensar que no seu conjunto, e neste momento, podemos constatar nestas lutas um movimento de unificação social, não no sentido teórico, identitário ou institucional (portanto da criação de um super-novíssimo movimento social), mas no sentido de um processo de convergência entre tácticas de luta operária radical e as aprendizagens feitas em tempos mais recentes (desde as primeiras movimentações alter-globalização, depois de Seattle a Génova, nos movimentos das acampadas e dos Occupy) de onde as recentes afinidades anti-capitalistas – por vezes à margem desses próprios movimentos e da sua retórica oficial – se começaram a querer levantar do chão, não porque são mais fixes do que as outras, mas porque os meios mais soft e mainstream se revelam todos os dias, senão de todo ineficazes, pelo menos tão ineficazes quanto as tácticas mais “violentas” que possamos considerar. Talvez essa síntese, se é que existe, nos possa demonstrar que não somos obrigados a permanecer petrificados em posições reformistas ou agarrados a plataformas de acção estritamente focadas na introdução de mudanças qualitativas no sistema social existente, pela via de tornar visíveis certas causas (ambientalismo, pacifismo etc); que se pode desenterrar o machado de guerra sem que isso signifique um impulso suicida recalcado, ou um fetiche bué macho pelo riot porn, ou uma afirmação sectária qualquer, mas uma prova de vida e um novo animo para a luta de classes: desta forma já libertada do lastro ideológico de uma narrativa emancipatória, que nas suas horas mais tristes não passa da glorificação do trabalho (por mais horrível que possa ser) ou da fé na “cidadania activa” (por mais pequeno-burguesa), e assente na própria Revolta posta em prática em toda a sua diversidade estratégica.

De como se auto-decapitar com um Corta-Relvas ou outros objectos pouco cortantes.

Em Lisboa e no Porto – e muito a contraciclo do que mais recentemente se tem aprendido em diversas “manifestações inorgânicas” (com e sem cargas policiais) nas ruas, nas ocupações da casa de São Lázaro e da Escola da Fontinha, das sucessivas imposturas policiais durante as pequenas greves que vão acontecendo, etc – representantes do civismo puro e sem gelo erguem-se para exigir a moralização da vida político-institucional da República (como se isso invertesse, ou ajudasse sequer, a alterar o rumo das políticas económicas vigentes e as suas consequências sociais, ou que iluminasse um palmo à frente dos nossos narizes a escuridão que temos à nossa frente); seja através de “acções de despejo” para ministros corruptos pontoadas por arremedos de ética e decência ou de barragens de petições a que se perde a conta; seja através de tentar cavalgar a mínima indignação desta e daquela figura publica integrada no actual regime/sistema. Longe de querer fazer juízos de intenção sobre o que move os dinamizadores dessas iniciativas, que deverá ser exactamente aquilo a que se propõem, o que preocupa é precisamente os que tomam parte delas imaginando-lhes poderes que visivelmente não têm, e que os próprios organizadores, julgo, não têm a audácia de preconizar.

Entendamo-nos, e não nos tomemos uns aos outros por parvos: já ninguém acredita sinceramente que os mecanismos legais/constitucionais estão em pleno funcionamento (mesmo sem fazer caso da sua função de controlo social, que também exercem), ou que, não estando, possam ser reactivados pelo mero exercitar das suas carcaças ocas, ou que se possa desmontar um governo (ou as suas políticas) peça-a-peça, como se fosse um motor velho. O que está em causa não é se somos ou não campeões da porrada com a bófia, ou pensar que alguém descobriu a fórmula certa de (re)activar as lutas sociais ou que tem no bolso esquerdo um pacote de soluções revolucionárias para tudo, mas que pessoas com pouca (alguma ou muita) experiência de activismo, actuem como se todos os meios tivessem o mesmo poder para dissolver o actual conformismo e para desenvolver com coerência uma resposta à altura do que os próprios consideram um ataque sem precedentes aos direitos e liberdades conquistados, ou o que resta deles.

Não resistir à tentação de tentar massificar mediaticamente os protestos, abdicando da sua radicalidade, nivelando o tom do protesto com o que se possa pensar ser um senso-comum de indignação latente, terá inevitavelmente o efeito contrário ao que se deseja. Desde logo porque é precisamente a radicalidade, e a diversidade do tom com que se protesta, que tem permitido o crescimento e a manutenção dos protestos mais fortes e consequentes que têm acontecido na Europa, e não o grau do seu bom senso, que tem dado oportunidade a uma radicalização posterior. O contrário disto é fazer-se passar por ingénuo ou tentar deliberadamente manipular uma indignação qualquer, federa-la ao mínimo pretexto e ganhar uma plateia onde despejar uma retórica que com sorte conquiste mais alguns adeptos, mas que em grande parte se torna duplamente desmoralizadora e desmobilizadora: afastando ao mesmo tempo os que julgavam estar perante algo de carácter moderado e reformista e aqueles que esperam, e querem mais, e que podem ser muitos mais do que muitos julgam (e que estão constantemente acossados pelos que os isolarão à primeira mijadela fora do penico): assim se gera desânimo e desconfiança recíprocos.

As manifestações tipo Corta-Relvas – do passado do presente e do futuro – sendo reactivas, estão à partida ultrapassadas pelos acontecimentos, porque servem apenas para moralizar a ordem social vigente a seu tempo (seja ela qual for) sem a interromperem, sem abrir caminhos, porque são facilmente recuperadas por ela, e porque não podem conter o descontentamento das camadas não-burguesas da população – económica e vitalmente fodidas muito para além das filhas-da-putice público-privadas deste ou daquele ministro, ou dos pontapés infligidos na democracia pelos seus próprios supostos ou impostos representantes. Isso desqualifica-as, ridiculariza-as ou retira-lhes legitimidade? Não. Apenas as torna exemplares de um activismo que reafirma a sua impotência e o seu curto alcance a cada ocasião; querendo crescer sozinho expandindo a sua moralidade. Que alguns que o sabem e que não desejam este simulacro, e outros rituais do género, pretendam ainda assim que se veja neles uma espécie de viagra da luta social realmente necessária, é que é pouco estimulante. Sem ironia, prefiro a ginástica, ou ver chover sindicalistas profissionais em cima dos automóveis dos ministros: às vezes chove.

engatilhado por Semeador de Favas às 00:32
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